O Evangelho um Sistema Perfeito — Evidência de que os Santos dos Últimos Dias Receberam o Espírito Santo — Casamento Plural
Brigham Young
Discurso do Presidente Brigham Young, proferido no Novo Tabernáculo, Salt Lake City, 9 de agosto de 1868. Relatado por David W. Evans. ¶
Vou me esforçar por falar ao povo de modo que possam me ouvir. Ouvimos com muita frequência queixas de que o povo não consegue ouvir. Isso me aborrece muito; não há satisfação em falar ao povo se não consegue ouvir. Falo muito, em público e em particular. Tenho labutado por muitos anos pregando o evangelho do Filho de Deus; e quando comecei, parecia que eu tinha necessidade de falar muito alto. Eu não conseguia satisfazer meus próprios sentimentos sem falar com voz alta. Adquiri esse hábito, e falar alto e por muito tempo, ao longo de muitos anos, desgasta a constituição de uma pessoa. ¶
Este evangelho que abraçamos é digno da atenção dos altos e dos baixos, dos ricos e dos pobres, dos sábios e dos ignorantes, dos nobres e dos plebeus. Recomenda-se aos sentimentos, ao entendimento e à consciência de toda criatura debaixo dos céus que seja dotada de inteligência. Não há sistema que seja perfeito, exceto o evangelho do Filho de Deus. Toda arte e ciência está incorporada no evangelho de salvação entregue aos filhos dos homens. Se os habitantes da terra possuem engenhosidade, conhecimento, sabedoria ou entendimento, recebem-nos dentro do âmbito ou do alcance deste evangelho que vem do céu. Já disse, e ainda sinto isso, que fora do evangelho do Filho de Deus — o plano de salvação — não há nada além de morte, inferno e sepultura; tudo o mais está dentro da nossa religião. Mas quando falamos em compreender nossa religião, ora, tanto valeria empreender compreender a eternidade. Temos um pouco dela. O Senhor manifestou aos filhos dos homens uma porção dela, o suficiente para permitir-lhes continuar, crescer, aumentar, expandir-se, acrescentar sabedoria à sabedoria e conhecimento ao conhecimento, pois luz se une a luz e verdade a verdade. O poder de crescer em conhecimento está em nossa posse, se aproveitarmos os momentos preciosos à medida que passam. ¶
Falamos muito aos Santos dos Últimos Dias. Para quê? Para trazê-los ao conhecimento da verdade; para colocá-los em posição de estarem preparados para herdar aquela glória que antecipam. E, para obter a perfeição que desejamos, mais será exigido de nós do que meramente um exercício espiritual da mente; nossas obras exteriores pertencentes à nossa vida natural, e de fato toda a nossa alma, devem ser devotadas a Deus e à edificação do Seu Reino. Falamos ao povo para trazê-lo ao conhecimento da verdade, e para trazermos a nós mesmos, pois estamos convosco, de modo que possamos compreender o que devemos fazer, como devemos labutar, como dirigir nossas vidas aqui, a fim de que possamos ser aperfeiçoados e preparados para gozar a vida eterna na presença do Pai e do Filho. Ainda sinto-me impelido a insistir aos Santos dos Últimos Dias sobre a necessidade de uma estrita aplicação dos princípios do evangelho em nossas vidas, conduta, palavras e em tudo o que fazemos; e isso requer o homem inteiro, a vida inteira devotada ao aperfeiçoamento, a fim de chegarmos ao conhecimento da verdade tal como está em Jesus Cristo. Nisto está a plenitude da perfeição. Estava contida no caráter do nosso Salvador; embora apenas uma parcela escassa dela tenha sido manifestada ao povo, em consequência de não conseguirem recebê-la. Tudo o que estavam preparados para receber, Ele lhes deu. Tudo o que estamos preparados para receber, o Senhor nos dá; tudo o que as nações da terra estão preparadas para receber, Ele lhes imparte. ¶
Os habitantes da terra não reconhecem o Senhor como deveriam. São muito poucos os que não creem num Ser Supremo; mas eles honram a Deus? Não, tomam Seu nome em vão. Creem que Ele é o que é? Não, mistificam de tal modo o caráter da Divindade que se torna impossível ao povo entendê-lo. Reverenciam Seu nome? Não. Se creem em um Deus, Ele está tão distante que jamais conseguem se aproximar dEle; nada sabem sobre a conduta deste Ser; e Ele está tão distante em suas imaginações que nada sabe a respeito dos filhos dos homens; ao menos tal é o sentimento entre eles, e, no entanto, muitos dos chamados cristãos dizem que Seu centro está em toda parte e Sua circunferência em parte alguma. Mistificaram os assuntos da salvação a tal ponto que todo o mundo da humanidade perdeu aquela reverência devida ao Ser Supremo. ¶
Os Santos dos Últimos Dias receberam o Espírito do Senhor; a prova está aqui, no ajuntamento e na união do povo. Estiveram os élderes de Israel em algum outro país além deste? Sim. Para pregar o evangelho? Sim. Estiveram na Inglaterra e ali pregaram o evangelho? Sim. Creu o povo? Sim. Onde está a vossa prova? A prova é que abandonaram tudo, se algo tinham, e vieram para o lugar de ajuntamento onde os Santos estão reunidos. Os élderes também têm pregado através das diferentes nações da Europa, na medida em que lhes foi permitido. Em alguns países a lei não os permitia; mas o Senhor há de ainda revolucionar aquelas nações até que a porta se abra e o evangelho seja pregado a todos. Creu o povo? Uns poucos. Mas ajuntamos os mais pobres do povo, os não instruídos, e uns poucos instruídos; mas, de modo geral, ajuntamos aqueles que são pobres, que desejam ser redimidos; que sentem a opressão que os altos e os soberbos os fizeram suportar; sentiram o desejo de ser libertados, e, por conseguinte, seus ouvidos estavam abertos para receber a verdade. Tomai aqueles que gozam de todos os luxos desta vida, e seus ouvidos estão fechados; não conseguem ouvir; mas ide aos pobres, aos que estão na pobreza e na necessidade, e eles estão olhando para todos os lados em busca de libertação, e quando ouvem os élderes pregar, seus ouvidos se abrem para ouvir e seus corações são tocados pelo Espírito do Senhor, e muitos deles têm crido. São estes os que ajuntamos. ¶
Ora, quando olhamos ao redor para os Santos dos Últimos Dias, do ponto de vista temporal, temos orgulho deles. Estive em países onde os homens, mulheres e crianças tinham de labutar — desgastando suas vidas — para obter o pão necessário para conservá-las. Já fui deitar-me muitas vezes e, ao virar a cama, encontrava o lençol remendado de ponta a ponta, de tal modo que eu me perguntava qual seria o lençol original. Também conheci moças — não sei se devo dizer isto, mas não o digo para desonrá-las, e sim para louvá-las — que voltavam do trabalho num sábado à noite e, recolhendo-se a um quarto, lançavam um cobertor sobre os ombros e lavavam cada peça de sua roupa, para que pudessem sair no domingo para assistir à reunião. São estas as que temos batizado. Por quê? Porque seus ouvidos estavam abertos, e o Espírito do Senhor encontrou caminho para seus corações, e viram que havia libertação no evangelho. Os ricos e nobres, de modo geral, têm voltado um ouvido surdo à voz dos élderes de Israel. Ora, o evangelho que abraçamos compreende toda glória, honra, excelência e verdade que existe nos céus, na terra ou debaixo da terra. É digno da atenção dos pobres? Sim, é. Segundo a leitura deste livro — o Antigo e o Novo Testamento, assim como o Livro de Mórmon e o Livro de Doutrina e Convênios —, que consideramos o fundamento de nossa obra, o Senhor escolheu os pobres deste mundo — ricos em fé — e virá o tempo em que Ele dará a terra a Seus pobres por herança eterna. Digo isto para consolo dos meus irmãos e irmãs que têm sido pobres. Vieram para cá, e o que vemos? Os jovens, os de meia-idade e os idosos progredindo em letras, em mecânica e nas artes e ciências. Nós os trazemos para cá para aperfeiçoá-los, e se o Senhor nos abençoar suficientemente, e o povo se abençoar a si mesmo, teremos uma nação que entende todas as coisas pertencentes à terra que é possível ao homem compreender. Será este povo digno de louvor? Sim, e honrado e honroso. Serão vistos como exemplos? Sim; e é dever dos Santos dos Últimos Dias viver sua religião de modo que todo o mundo possa dizer que há um modelo para nós, não somente em nossos negócios e adoração, mas em nosso conhecimento das coisas que são, das coisas que foram e das coisas que ainda estão por vir, até que o conhecimento de Sião alcance as partes mais remotas da terra, e os reis e grandes homens digam: "Subamos a Sião e aprendamos sabedoria". Virão para cá aprender a governar? Sim. Uma das coisas mais simples do mundo é controlar um povo. Há alguma arte particular em tornar este povo obediente? Há apenas uma. Se vós, élderes de Israel, conseguirdes fazer com que a arte de pregar o Espírito Santo entre nos corações do povo, tereis um povo obediente. Esta é a única arte necessária. Ensinai ao povo a verdade, ensinai-lhe o princípio correto; mostrai-lhe o que é para o seu maior bem, e não pensais que seguirá esse caminho? Seguirão, na medida em que seja compatível com suas fraquezas e com o poder das trevas que paira sobre os habitantes da terra — conosco como com os outros. Já emergimos parcialmente para a luz, e devemos ser muito gratos e obedientes às exigências do Céu, para que possamos receber cada vez mais. ¶
Toda arte e ciência conhecida e estudada pelos filhos dos homens está compreendida no Evangelho. De onde veio o conhecimento que permitiu ao homem realizar tão grandes feitos em ciência e mecânica nos últimos anos? Sabemos que o conhecimento vem de Deus, mas por que não O reconhecem? Porque são cegos aos seus próprios interesses, não veem nem entendem as coisas como são. Quem ensinou os homens a acorrentar o relâmpago? Descobriu o homem isso por si mesmo, sem auxílio? Não, ele recebeu o conhecimento do Ser Supremo. DEle também procedeu toda arte e ciência, embora o crédito seja dado a este ou àquele indivíduo. Mas de onde tiraram o conhecimento, têm-no em si e por si mesmos? Não, devem reconhecer que, se não conseguem fazer crescer uma só folha de relva, nem tornar branco ou preto um só cabelo sem auxílio artificial, dependem do Ser Supremo tanto quanto os pobres e os ignorantes. De onde recebemos o conhecimento para construir a maquinaria poupadora de trabalho pela qual a presente época é notável? Do Céu. De onde recebemos nosso conhecimento de astronomia, ou o poder de fazer lentes para penetrar a imensidão do espaço? Recebemo-lo do mesmo Ser de quem Moisés, e os que vieram antes dele, receberam seu conhecimento; o mesmo Ser que disse a Noé que o mundo seria afogado e seu povo destruído. DEle obteve seu conhecimento todo astrônomo, artista e mecânico que já viveu na terra. Por Ele, também, foi concedido o poder de receber uns dos outros, e de perscrutar as coisas profundas pertencentes a esta terra e a todo princípio a ela ligado. ¶
Podemos receber tudo isso em nossa educação aqui; mas, para adquirir conhecimento destes princípios, são necessários tempo e estudo. Deixai uma criança ir à escola, e ela começa com o a, b, c, e passa a a-b ab, e então a palavras de duas ou três sílabas, até estar preparada para um curso superior de estudos. Nenhuma criança pode aprender álgebra ou aritmética comum de início, mas tem de ir avançando dia a dia, assim como vós e eu temos de fazer. Aprendemos muitas coisas a respeito do Reino de Deus sobre a terra, e podemos aprender ainda mais. Mas, com tudo o que aprendemos, estamos nós, Santos dos Últimos Dias, preparados para pôr nossa confiança em Deus implicitamente? Não, não estamos. Como sabemos? Pelos atos do povo e por nossa própria experiência. Isto é em consequência do mal e do poder de Satanás que está no mundo através da Queda. Ele enganou os habitantes da terra e lançou uma névoa diante de seus olhos, de modo que não conseguem ver as providências de Deus. Quem consegue ver o poder pelo qual crescem as folhas daquelas árvores? Podeis vê-lo e entendê-lo? Não; por quê? Porque há um véu lançado sobre os olhos e as mentes dos filhos dos homens, de modo que não conseguem contemplar as providências de Deus nem Sua obra em toda a natureza. Somos privados deste conhecimento; mas podemos começar a ver e entender ao recebermos o Evangelho. Mas ainda temos muito a aprender. ¶
Diz-se que "a obediência é melhor que o sacrifício". É muito melhor. Quando olho para os Santos dos Últimos Dias — e quando digo vós, incluo a mim mesmo — (eu, Brigham, estou convosco) —, onde estamos? O que entendemos? Até onde avançamos? O que esperamos receber? Como estamos olhando para as coisas pertencentes a este mundo? Recebemos os primeiros princípios do Evangelho; e recebemos o espírito do Evangelho; mas vivemos de modo a crescer nisto dia a dia? Esta é a questão. Vivemos nossa religião de modo a melhorar em todo o conhecimento que Deus nos deu? Vivemos à altura da luz que o Senhor revelou? Podeis responder a esta pergunta. Os Santos dos Últimos Dias, como povo, são um povo muito bom, são excelentes; chegaram a uma unidade das mais notáveis — surpreendente até para nós mesmos, e também para os outros. Mas somos um ainda? Não, não exatamente; temos muito a aprender antes de chegarmos à unidade da fé e vermos face a face como o povo de Deus tem de fazer nos últimos dias. Vemos algumas coisas, mas não vemos tudo o que é para nosso maior benefício; se víssemos, viveríamos nossa religião. ¶
Ora, meus irmãos e irmãs, dos círculos altos e dos círculos inferiores da vida, achai, se puderdes, sobre a face da terra, um cavalheiro ou uma dama, isto é, alguém que seja um verdadeiro cavalheiro ou uma verdadeira dama (temos muitos que são chamados cavalheiros e damas); mas achai um no sentido estrito da palavra, isto é, como eu a interpretaria, e achareis um homem ou mulher que se aproximaria muito de um anjo. Cada palavra que falarem será temperada com graça; cada ato de suas vidas seria tão próximo dos anjos quanto os mortais podem chegar; nada haveria neles de baixo, degradante ou desonroso. Achai um cavalheiro e achareis um homem que possui um coração cheio de caridade, fé e amor, cheio de boas obras, cuja mão está sempre aberta para fazer o bem a toda criatura. Achai uma dama, e ela é alguém pronta a impartir sabedoria, conhecimento, verdade e todo princípio virtuoso e santo às suas irmãs e a seus semelhantes. Estes são o verdadeiro cavalheiro e a verdadeira dama; mas são de uma ordem superior àqueles que hoje chamamos cavalheiros e damas. Podeis dizer que minha definição está incorreta. Que assim seja, pouco me importa. Tenho minhas próprias opiniões a respeito destas coisas. Considero os Santos dos Últimos Dias um povo muito bom, mas muito distante do que deveriam ser. "Bem, precisamos de tempo para crescer", diz alguém. Muito verdade, não podemos aprender nem mesmo a "Primeira Cartilha" num dia. Quando começamos a ir à escola, aprendemos um pouco hoje, um pouco mais amanhã, e um pouco mais no dia seguinte, e assim acrescentamos conhecimento a conhecimento; e, pouco a pouco, vós e eu havemos de chegar à unidade da fé. Este é o Evangelho — o plano de salvação — em que cremos. Esta é a doutrina que pregamos ao povo — purificarmo-nos como Ele é puro; santificar o Senhor Deus em nossos corações, para que sejamos considerados dignos de receber Suas bênçãos e sermos sustentados por Ele. ¶
Sabemos muito bem que o nome "mórmon" é aplicado rudemente aos Santos dos Últimos Dias, e sabemos muito bem o que o mundo pensa de nós; mas que importa isso para nós? Nada. Suponde que tivéssemos o poder de tomar os pobres e os ignorantes, os baixos e os degradados que são pisados sob os pés pelos grandes e poderosos entre os habitantes da terra, e reuni-los e purificá-los, e enchê-los de conhecimento e entendimento, e fazer deles uma nação digna de admiração, o que diríeis a isto? Ó, vós, habitantes da terra, podeis fazê-lo? O Senhor pode. Pois bem, é este povo que contemplo; este é o povo com quem espero ser salvo. Tenho orgulho deles. Não orgulho de sua ignorância ou baixeza; de forma alguma orgulho de sua impiedade. Mas tenho orgulho de pensar que recebemos o evangelho e somos habilitados a nos santificar, se estivermos dispostos. Deleito-me nos Santos dos Últimos Dias, por causa de sua obediência a estes princípios, e não por causa de seu curso de vida rude e grosseiro. ¶
Ora, cabe-nos aperfeiçoarmo-nos por meio destes princípios. Recebemos o evangelho e fomos batizados para a remissão dos nossos pecados. Há algo de errado nisto? Não; o mundo cristão professa crer no Antigo e no Novo Testamento; os judeus dizem crer no Antigo Testamento. Cremos em ambos, e isso não é tudo: cremos no Livro de Mórmon e na Doutrina e Convênios dados pelo Senhor a Joseph Smith e por ele à Igreja. Cremos também que, se estivéssemos destituídos do Espírito do Senhor, e nossos olhos estivessem fechados de modo a não conseguirmos ver e entender as coisas como são pelo espírito de revelação, poderíamos dizer adeus a todos estes livros, por numerosos que fossem. Se tivéssemos toda a revelação dada desde os dias de Adão e estivéssemos sem o espírito de revelação, para estar e permanecer no meio do povo, seria impossível para nós sermos salvos no reino celestial de Deus. O mundo nos considera um grupo de fanáticos por crermos nisto; mas isso não nos importa em nada. Temos nosso caminho diante de nós; o rumo que devemos trilhar está marcado. Qual é ele? É marchar em frente, marchar em frente, ó Santos dos Últimos Dias, para as ordens superiores da vida neste mundo. Marchai em frente, Santos dos Últimos Dias, até que estejais preparados para receber a vida eterna na presença do Pai e do Filho. Que importa o que o mundo diz? Isso não nos faz diferença alguma, nem a menor. Mas eu vos direi o que nos concerne: ordenar nossas vidas de acordo com os princípios do evangelho que abraçamos. Deixai um cristão viver sua religião e ele será honrado e estimado por seus irmãos, amigos e conhecidos. E até mesmo o ímpio contempla com um sentimento de reverência um homem ou mulher que vive sua religião, e involuntariamente honram aquele ser que honra o seu Deus. O mais vil dos miseráveis que vivem sobre a face da terra olha com reverência para uma pessoa que é um verdadeiro seguidor de Jesus, e não pode evitá-lo. Se nos respeitarmos, moldaremos nossas vidas de acordo. Se assim o fizermos, nos tornaremos puros e santos. Há algo de errado nisto? Não; nem há o menor mal no mundo em reconhecer a mão de Deus em todas as coisas. Se me fosse dada hoje a habilidade de construir uma máquina pela qual pudéssemos passar de nação a nação pela atmosfera, tal como agora se faz na terra firme pela estrada de ferro, haveria algum mal em reconhecer a Deus nisto? Eu receberia o conhecimento dEle; não é algo independente em mim mesmo. Dependo dEle por cada respiração que tomo e por cada bênção que recebo. Se vós, ó nações ou sábios da terra, não dependeis dEle, gostaríamos de ver-vos agir independentemente. Deixai que um homem que pensa ter poder independente de Deus — se houver tal homem — tome um grão de trigo, centeio, cevada, ou um grão de milho, do elemento que Deus ordenou e organizou para seu desenvolvimento, e vejamos se consegue fazê-lo crescer. Todos reconhecem que não se pode fazer. Pois bem, então não haveria mal em reconhecer a Deus em todas as coisas. Mas, aqui faço uma pausa; não quero dizer que devemos reconhecer a mão de Deus num homem ou mulher que faz o mal; mas reconhecerei a mão de Deus em sustentar o indivíduo enquanto o faz. Não importa que mal um ser humano cometa, ele ou ela é sustentado pelo Todo-Poderoso enquanto o faz. Mas o ato é da criatura, e não do Criador. Devemos reconhecer a mão de Deus em todas as coisas. E se o fizermos, viveremos nossa religião um pouco melhor do que temos vivido. ¶
Ó, minhas irmãs, não quereis melhorar um pouco? Devo chegar à nossa própria capacidade aqui hoje? Sim; então olhemos um pouco e vejamos o que é para nossa vantagem. Quantos de meus irmãos e irmãs há que têm uma casa da moeda ou um banco a que recorrer, com uma fonte inesgotável de riqueza? Nenhum; somos pobres. Fomos ajuntados pobres. É verdade que estamos decentemente vestidos; mas por que não ir aos campos e tomar a palha e fazer vossos chapéus e toucas, e poupar aquele dinheiro para mandar buscar os Santos pobres? Pagariam dez mil dólares pelos chapéus e toucas usados por esta congregação hoje? De modo algum. Mas suponhamos que fossem cinco mil, essa quantia seria melhor empregada em mandar buscar os pobres do que gasta em artigos cujo material pode ser colhido e fabricado bem aqui. Vejo hoje, nesta congregação, uns poucos chapéus de palha com enfeites de palha, feitos talvez pelas mãos das próprias usuárias, e podeis compará-los em beleza com artigos importados? Não, não podeis. Pois bem, estas são as lições que procuramos ensinar ao povo o tempo todo. Ensinamos homens que passaram toda a vida na fábrica a preparar o solo, a plantar batatas, milho, abóbora, pepino, cebola e repolho, para que tenham algo a comer quando as tristes tempestades do inverno os alcançarem. E assim ensinamos o povo a viver. Este é o nosso negócio. Se não aprenderdes a viver aqui, como podereis viver depois? Se não entenderdes as coisas desta vida, como podereis entender as coisas pertencentes à vida futura? Assim como o apóstolo diz a respeito de amar uns aos outros — "Se dizeis que amais a Deus e odiais a vosso irmão, desmentis vossas próprias palavras, pois como podeis odiar aquele a quem vistes e amar Aquele a quem não vistes?" Não podeis fazê-lo. Fazemos a aplicação aqui: como podemos entender coisas de mil anos à frente se não entendemos o que está aqui hoje? Tomamos as crianças e ensinamos à menina a fiar, tecer e tricotar suas próprias meias; e aos meninos, a conduzir a junta de bois, arar, ir ao campo enxadar e preparar o solo, e semear a semente para que tenham alimento a comer. E depois? Ora, dizei sempre vossas orações antes de ir trabalhar. Nunca vos esqueçais disso. Um pai — o chefe da família — nunca deve deixar de reunir sua família e dedicar-se a si mesmo e a eles ao Senhor dos Exércitos, pedindo a orientação e a direção de Seu santo espírito para guiá-los ao longo daquele dia — aquele mesmo dia. Guia-nos neste dia, orienta-nos neste dia, preserva-nos neste dia, salva-nos de pecar contra Ti ou contra qualquer ser no céu ou na terra neste dia! Se fizermos isto todos os dias, no último dia de nossa vida estaremos preparados para gozar uma glória superior. ¶
Há um pequeno assunto de que quero falar-vos, minhas irmãs. É um assunto muito odioso para os de fora. Têm-nos dado crédito por indústria e prudência; mas temos uma doutrina em nossa fé que, a seus olhos, é errônea, e muito má; é penoso pensar nela. Devo dizer-vos o que é, irmãs? "Ó," diz alguém, "sei o que quereis dizer, meu marido tem duas, quatro, ou meia dúzia de esposas." Pois bem, quero dizer às irmãs como se libertarem deste opróbrio, como muitas delas o consideram. Esta doutrina, tão odiosa e aborrecida aos sentimentos de muitos, foi revelada do céu a Joseph Smith, e dela se exige obediência dos Santos dos Últimos Dias — este mesmo princípio há de operar a salvação moral do mundo. Credes nisto? Não faz diferença se credes ou não, é verdade. Diz-se que as mulheres governam entre todas as nações; e se as mulheres, não somente nesta congregação, neste Território e governo, mas no mundo, se levantassem no espírito e no poder do santo evangelho e fizessem bons homens daqueles que são maus, e lhes mostrassem que estarão sob a necessidade de casar com uma esposa ou então não ter nenhuma mulher, logo chegariam ao alvo. Sim, esta odiosa doutrina há de operar a reforma moral e a salvação desta geração. As pessoas em geral não o veem; minhas irmãs não o veem; e não sei se todos os élderes de Israel o veem. Mas, se este curso for seguido, e o tornarmos regra de prática, forçará todos os homens a tomar uma esposa. Então nos contentaremos com uma só esposa. Eu deveria ter estado assim desde o princípio; o sistema de uma só esposa não teria em nada me desagradado. Se o profeta me tivesse dito: "Irmão Brigham, jamais poderás ter mais de uma esposa por vez," eu teria dito: "glória, aleluia, é exatamente o que gosto." Mas ele disse: "terás de tomar mais de uma esposa, e esta ordem tem de se espalhar e aumentar até que os habitantes da terra se arrependam de seus males e os homens façam o que é correto para com as mulheres. Nisto também digo glória, aleluia." Fazem os homens agora o que é correto? Não. Vedes viajantes — jovens, de meia-idade ou idosos — vagando pelo mundo, e perguntai-lhes onde estão suas famílias, e a resposta geralmente será: "Não tenho nenhuma." Ide à cidade de Nova York, e entre os mercadores de lá, duvido que haja um homem em três que tenha esposa. Ide ao médico e perguntai: "onde está tua esposa e família?" e "graças a Deus, não tenho nenhuma," será sua resposta. O mesmo se dá com o advogado. Perguntai-lhe sobre sua esposa, e sua resposta será: "Ó, bendito seja, não tenho nenhuma, digo isso para meu louvor, não sou incomodado por família." Ide ao pastor, e não fosse por sua profissão, o manto de religião que o envolve, nem um em mil deles teria esposa ou filhos. ¶
Não vos assusteis, minhas irmãs; não temais de forma alguma; apenas obtende influência suficiente entre as filhas de Eva no meio desta geração, até terdes poder suficiente sobre os homens para trazê-los à razão, de modo que ajam segundo a regra do que é correto, e vereis que seremos livres imediatamente, e os élderes de Israel não estarão sob a necessidade de tomar tantas mulheres. Mas continuaremos a fazê-lo até que Deus nos diga para parar, ou até que caiamos em pecado e iniquidade, o que jamais acontecerá. ¶
Vedes algo de muito mau nisto? Perguntai a vós mesmos, historiadores, quando a monogamia foi introduzida sobre a face da terra? Quando aqueles piratas que se estabeleceram na península onde hoje se ergue Roma não conseguiram roubar mulheres suficientes para ter duas ou três cada um, aprovaram uma lei de que um homem devia ter apenas uma mulher. E isto deu início à monogamia e à queda do sistema plural. Nos dias de Jesus, tendo Roma domínio sobre Jerusalém, executaram a doutrina mais ou menos. Esta foi a origem, o início e o fundamento da doutrina da monogamia; e jamais, até então, houve lei aprovada, que tenhamos conhecimento, de que um homem devesse ter apenas uma esposa. ¶
Ora, irmãs, quero que atenteis para isto. Aconselho-vos a ter fé e boas obras; sede fervorosas em espírito e virtude, e procurai viver de modo a trazer os homens ao padrão do que é correto, então não teremos problema algum. Creio que em Massachusetts há apenas 27.000 mulheres a mais que homens; mas isso não é muito. Há talvez uma causa para isto. Muitos jovens vão para o exército, ou vão para cá ou para lá. O que se faz com as filhas de Eva? Em muitos países as colocam nas fábricas, nos campos, nas minas de carvão e nas ruas — como já vi centenas delas — a recolher estrume, etc., trabalhando o dia inteiro e ganhando um centavo à noite para comprar um pedaço de pão. Colocam algumas delas nas fundições de ferro, debaixo da terra, a empacotar o minério, ou nos edifícios a laminar o ferro. Mas os jovens são mandados para as guerras. Quando a Inglaterra e as demais nações não mais aprenderem a guerra, em vez de aprovar uma lei nesta ou em qualquer outra nação contra um homem ter mais de uma esposa, aprovarão uma lei para fazer os homens fazerem o que devem, honrando as filhas de Eva e fazendo delas esposas e provendo para elas. Não será isto um tempo feliz? Sim, muito bom. Se produzísseis isto hoje, vos direi o que estaria disposto a fazer. Estaria disposto a abrir mão da metade ou de dois terços de minhas esposas, ou deixar que todas se fossem, se fosse necessário, se aqueles que as tomassem as conduzissem à salvação eterna. E então poderíeis ter minhas filhas, se apenas as conduzísseis pelo caminho que devem seguir, para que obtenham a vida eterna; se lhes ensinardes o evangelho, como viver, como honrar seu próprio ser, honrar seu Deus e viver sua religião. Fazei isso e sois bem-vindos a elas. Obteria eu mais esposas? Se assim o quisesse; mas se não tivesse nenhuma, estaria tudo bem. Se tenho uma, está tudo bem, e se tivesse vinte, estaria tudo bem. ¶
Pretendo ensinar, orar e suplicar ao povo que se salve dando ouvidos aos mandamentos de Deus, e que viva sua religião, para que possamos atravessar um mundo de pecado, trevas, ignorância e incredulidade. O homem é propenso a vaguear tal como as faíscas o são a voar para cima. O espírito guerreia continuamente com a carne, e a carne contra o espírito. Qual sairá vitorioso? Isto decidirá o destino de todos os habitantes da terra. Se o espírito reinar triunfante e vencer o corpo e suas paixões, aquele caráter receberá glória; mas se as paixões e o pecado, dentro da carne, vencerem o espírito e o subjugarem, aquele caráter se perderá. Isto é tudo o que há. O Senhor fez tudo o que Lhe cabia. Sua graça é suficiente; Ele estabeleceu o plano de salvação para que o sigamos. Trabalhai com esquadro e tudo estará certo. Deus vos abençoe. Amém. ¶