Analogia Entre a História de José no Egito e a dos Santos dos Últimos Dias--Descoberta da América por Colombo--Seu Efeito na Obra dos Últimos Dias--Bondade de Deus para com Seu Povo
Orson Hyde
Sinto-me grato, meus irmãos e irmãs, pelo privilégio de me reunir mais uma vez convosco neste tabernáculo. Sinto-me grato por sermos tantos os poupados para nos reunirmos. ¶
Não preciso reiterar aos vossos ouvidos que vivemos num dia e época de grande importância no mundo, igualmente importante para os Santos do Altíssimo como para o resto da humanidade; pois o presente está repleto de acontecimentos que deveriam admoestar-nos a viver perto do Senhor e a manter-nos incontaminados do mundo. Fomos provados na adversidade. Muitos de nós sabemos o que é estar nas próprias profundezas da pobreza e privação; e agora parecemos ter avançado para uma prosperidade moderada, a fim de sermos provados e testados de outra maneira, e que se saiba nos céus e entre os justos na terra se somos capazes de suportar a prosperidade tão bem quanto a adversidade. ¶
Há tantas coisas diante de mim e em minha mente que mal sei sobre o que falar e chamar a vossa atenção. Não sei se importa muito, pois os Santos se interessam por tudo o que é bom, reconfortante e animador para o coração. Direi, porém, que o que foi escrito outrora foi escrito para nosso proveito e instrução, para que nós, através da compreensão disso, pudéssemos ter paciência e esperança. Um grande empreendimento foi determinado por nosso Pai Celestial, e para este propósito ele pareceu ter inspirado certo indivíduo com as manifestações de sua vontade em sonhos, e visões do dia, talvez, também, da noite, e esse indivíduo foi José de outrora. Parece que neste filho do patriarca Jacó, os germes de grandeza e poder se manifestaram, não somente para ele mesmo em suas próprias reflexões e pensamentos, e em razão das manifestações que recebeu da vontade Divina, mas, também, para a satisfação de seus irmãos, de que ele provavelmente aspiraria a, ou seria elevado a, domínio e governo sobre eles. Isto despertou a inveja e o ciúme deles até que não podiam suportar sua presença. Buscaram livrar-se dele, e planejaram vários esquemas e meios para consegui-lo, especialmente depois que ele lhes contou seu sonho, de que seus feixes tinham feito reverência ao seu feixe enquanto amarravam no campo da ceifa. E então, para culminar o clímax, ele lhes contou que tivera outro sonho, no qual o sol e a lua e as onze estrelas tinham lhe feito reverência. Não somente ele teria domínio e poder sobre seus irmãos, mas seu pai e mãe, também, reconheceriam seu poder. ¶
Isto criou um ciúme que só foi satisfeito com a separação dele deles, e o venderam a certos mercadores ismaelitas, que o levaram, escravo, para o Egito. Pouco pensavam eles, ao vê-lo partir com os camelos daqueles mercadores, que ele era apenas um pioneiro para abrir caminho diante deles, e que eles realmente teriam de seguir suas pegadas e buscar socorro em suas mãos. Mas com o passar do tempo isso provou ser verdade, pois o país de onde ele fora expulso, vendido como escravo e afastado à força, foi visitado pela fome, e ele, pela intervenção da Providência, foi elevado ao poder na terra para a qual fora banido. Ele se tornara um príncipe naquela terra, e sua receita e riquezas estavam sob seu controle. Seus irmãos foram forçados pela fome a descer até lá; assim como seu pai e os pequeninos deles. Quando chegaram até ele e o encontraram ocupando um estado principesco, foi avassalador para eles. Curvaram-se diante dele. Ele era um príncipe! O Todo-Poderoso o havia abençoado e o fortalecera na terra para a qual o haviam banido. O próprio ciúme e inveja deles o haviam colocado no caminho da grandeza e do poder, e eles próprios foram obrigados a buscar socorro do irmão que haviam odiado e banido. ¶
Referi-me a apenas algumas circunstâncias ligadas à história desses indivíduos, pois consumiria muito tempo entrar mais a fundo nelas. Mas o suficiente foi dito para vos mostrar a analogia que se segue: Fomos expulsos de certo país porque nossos inimigos descobriram em nós germes de poder e grandeza que despertaram seu ciúme e ódio, e estavam determinados a livrar-se de nós. Quando nos viram partir, para cruzar as vastas planícies que se estendiam diante de nós, ao voltarmos as costas aos lares que havíamos construído com muito trabalho e labor, lisonjearam-se de que estavam livres de qualquer domínio nosso, real ou imaginário. Mas pouco pensavam eles, ao fazê-lo, que nos estavam forçando a uma trilha que eventualmente teriam eles próprios de percorrer. Isto estava oculto de seus olhos. ¶
Os Santos de fato atravessaram as planícies para deixar aquele país, e aqui estamos; e quem melhor do que nós mesmos pode apreciar as circunstâncias que agora nos acompanham? O Todo-Poderoso nos abençoou neste país; Ele derramou Suas bênçãos generosamente sobre nós, pelo que todo coração aqui deveria bater com gratidão ao Altíssimo. Enquanto a guerra devasta o país de onde viemos, aqui estamos em paz, pelo que deveríamos ser gratos agora que aqui estamos. Aquele elemento que nos expulsou, não, talvez, o primeiro, mas esse mesmo elemento começa a seguir nossas pegadas. Qual é a sua política? A política, sem dúvida, é cessar de nos invadir pela força das armas. Mas outra é adotada, mais facilmente realizada. Qual é? Pois bem: "Oleraremos os nossos lábios, e suavizaremos as nossas línguas, e nos insinuaremos em vosso favor; nos misturaremos e conviveremos convosco como irmãos, e vos levaremos embora; vos contaminaremos, e ao derramar riqueza em vosso colo, vos tornaremos indiferentes ao vosso Deus, à vossa fé e aos vossos convênios." O objetivo é destruir aqueles germes de grandeza que o Céu plantou em nossas almas, com os quais eles se sentem alarmados--germes de grandeza que, se cultivados, nos levarão a exercer um poder ao qual as nações terão de se curvar, assim como as nações tiveram de se curvar àquele José que foi vendido para o Egito. ¶
Outra circunstância a que chamarei vossa atenção. Em primeiro lugar, todo grande empreendimento é acompanhado de suas dificuldades, suas provações e oposições, pois é necessário que haja oposição em todas as coisas. Diz-se-nos que no ano de 1492 este continente americano foi descoberto por Cristóvão Colombo. Observai os esforços feitos por ele para obter os meios necessários para efetuar a descoberta. Foram necessários navios, meios e homens para lhe permitir abrir caminho através do abismo sem trilhas para encontrar um país que, para ele, parecia necessário para equilibrar a terra. O Espírito de Deus veio sobre ele, e ele não teve descanso nem de dia nem de noite até realizar aquilo que o Espírito operou nele para fazer. Foi primeiro a um lugar e depois a outro para procurar ajuda. Recorreu a diferentes cabeças coroadas, e recebeu recusas e desânimos. Ele era pobre; os planos de Jeová são em sua maioria realizados por indivíduos humildes e pobres. Assim foi com Colombo; ele era pobre, mas ousado e perseverante, e com uma alma formada dentro de seu peito para empreender e prosseguir o grande empreendimento que traria à luz um vasto continente reservado na providência de Deus como o teatro de grandes acontecimentos num período que então estava no futuro. Com a ajuda de Fernando e Isabel da Espanha, obteve três pequenos navios, velhos e quase apodrecidos, mal tripulados e mal abastecidos. Não foi porque acreditavam que ele teria sucesso, mas como o juiz injusto com a viúva pobre, desejavam livrar-se de suas importunações. O juiz injusto não tinha sentimentos muito fortes a favor da viúva, mas para se livrar de suas importunações, atendeu à sua súplica. Assim serviram a Colombo. Disseram que o equipariam e o mandariam embora, e que ele poderia seguir com suas explorações em busca do país imaginário que ele julgava estar em direção ao oeste. Se tivessem alguma fé de que ele teria sucesso, tê-lo-iam equipado com os melhores navios que qualquer marinha da época poderia oferecer, tripulados com homens suficientes e supridos com todos os equipamentos necessários; e então teriam dito: "Ide e prosperai, e que o Deus dos mares apadrinhe vosso curso." Mas não tinham fé no empreendimento; queriam pôr fim às suas importunações e livrar-se dele. ¶
Quando olhamos para trás em nossa história, encontramos certa analogia nela com a deste homem. Nossos inimigos queriam livrar-se de nós. Recorremos aos poderes que existiam por ajuda e socorro. O que recebemos em resposta às nossas súplicas? Silêncio em alguns casos; desprezo em outros. E quando tivemos de vender tudo, não foi com navios velhos e apodrecidos que nos pagaram, mas com carroças velhas e apodrecidas, cavalos velhos e aleijados, e outras coisas igualmente sem valor. Então disseram: "Ide e fazei o melhor que puderdes." Pensavam ter-nos dado um provimento que nos duraria até que nossa destruição fosse consumada; imaginavam que nos duraria até que ultrapassássemos o que lhes aprazia chamar de civilização; mas pensando que, talvez, pudéssemos sobreviver a tudo, exigiram quinhentos de nossos melhores homens, enquanto acampados no deserto, deixando nosso acampamento aos cuidados de aleijados e homens e mulheres idosos, no meio de um território indígena. Mas sobrevivemos. ¶
Pouco pensavam Fernando e Isabel que Colombo estava abrindo o caminho que toda a Europa teria de seguir. Se assim tivessem pensado, ter-lhe-iam dado melhores navios e melhor provimento. Mas quando descobriram que ele abrira um novo país, rico e abundantemente produtivo, eis que a superfície do oceano se embranqueceu com as velas de embarcações, carregando suas cargas vivas em aglomeração para buscar fortuna no novo continente que se estendia convidativamente diante delas. Toda a Europa, falando figuradamente, seguiu suas pegadas, e se espalhou pela face da terra. Mas vede a que chegaram esses aventureiros. Este país, descoberto por ele, está envolto em guerra; e se viverdes mais alguns anos, vereis grande parte da terra que foi abençoada com prosperidade incomparável, do leste ao oeste, tornar-se um deserto e uma desolação; e isto será em consequência do abuso das bênçãos concedidas a ela por aqueles que as desfrutaram. Se não me engano, certo Senador disse a um Senador da Luisiana: "Que ides fazer com a Luisiana?" "Ora," foi a resposta, "a Luisiana era um deserto quando a compramos da França, e se ela se separar, torná-la-emos um deserto novamente." Se a terra não se tornar um deserto e uma desolação, não vemos corretamente--não compreendemos corretamente as revelações que o Todo-Poderoso nos deu. A Escritura diz que nos últimos dias o povo dele avançará e edificará os lugares devastados de Sião. Mas primeiro têm de ser tornados desolados, antes que possam ser chamados "os lugares devastados de Sião." Então as mãos dos Santos serão requeridas para edificá-los. ¶
Comparai a vinda dos Santos aqui com o banimento de José para o Egito, e a maneira como Colombo foi enviado em sua perigosa exploração, e observai a conclusão que se segue. O mundo temia os germes de grandeza que via nos Santos. Temiam o poder que parecia acompanhá-los. Estavam quase em guerra conosco porque estávamos unidos. Desagradava-lhes a ideia de sermos politicamente um só. Queriam que fôssemos de partidos diferentes. Mas quando viram que estávamos unidos, disseram: "Há um poder destinado a torná-los grandes, a exaltá-los." E deixai-me dizer aqui aos Santos: sede unidos e sede um com o vosso líder, e ascendereis com certeza ao poder e elevação na terra assim como José de outrora o fez na terra do Egito. Aqui estamos, e em unidade. Não estamos destruídos. Quando observo nossa condição no momento presente, não posso deixar de sentir que deveríamos ser gratos ao Senhor todos os dias de nossa vida. ¶
Certa vez fui comerciante, no Leste, no ramo mercantil, e costumávamos vender nossa fazenda comum não branqueada a 16 2/3 centavos a jarda. Uma jarda de fazenda rendia um alqueire de aveia. Quando vejo que os Santos podem agora obter três jardas de fazenda por um alqueire de aveia--três vezes mais por seus produtos neste "país abandonado por Deus," como alguns o chamam, do que podíamos obter quando estávamos no leste, tenho dito: o que senão a mão de Deus poderia ter feito isto? Sinto que a mão de Deus está sobre este povo. Então por que, no dia da prosperidade, deveríamos permitir que nossos corações corressem atrás das coisas deste mundo, e não permitir que nossos sentimentos e afetos estejam centrados neste reino, e usar as riquezas deste mundo como usamos as águas do oceano--não entrar nelas para sermos engolfados por elas, mas deslizar sobre elas em direção ao poder e à grandeza como o navio segue em direção ao seu porto de destino. ¶
Alegro-me pelo privilégio de estar convosco hoje, e de vos dirigir algumas palavras. De fato, nunca me senti mais grato a Deus, nem tive sentimentos de maior alegria nos princípios da vida do que tenho hoje. Alegro-me por ser considerado digno de portar o nome do meu mestre Jesus. Estamos fazendo o melhor que podemos para edificar o reino do nosso Deus naquela parte do Território onde principalmente passo meu tempo, e presumo que estais fazendo o mesmo aqui. Digo aos Santos: no dia da prosperidade acautelai-vos do orgulho, acautelai-vos da mentalidade mundana, acautelai-vos de que não sejamos enredados pelas coisas deste mundo. Deixai-vos dizer, os juízos do Todo-Poderoso estão começando a ser derramados sobre as nações da terra. Uma grande porção das nações que não se arrependerem será eventualmente varrida diante dos justos juízos do Céu. E se os Élderes forem enviados para levar a verdade às nações, irão, por assim dizer, na cava de uma onda, enquanto as ondas de tribulação e destruição passam sobre as nações, recuando antes que outra onda venha; e assim, pela voz da misericórdia e pelas palavras da verdade, as nações serão preparadas para sua ruína. ¶
Irmãos e irmãs, sede fiéis--sede verdadeiros ao Senhor nosso Deus. Ainda que não obtenhais tanto dos bens deste mundo, tende certeza de que os vossos corações estejam em uníssono com o Deus do Céu. Que a paz de Israel esteja e permaneça convosco, e com aqueles que guiam os destinos de Israel de agora em diante e para sempre. Amém. ¶