O Reino de Deus
Brigham Young
Usarei, como fundamento de minhas observações, palavras encontradas em Apocalipse, capítulo 11, versículo 15 — "E tocou o sétimo anjo a sua trombeta, e houve no céu grandes vozes, que diziam: Os reinos do mundo tornaram-se de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre." ¶
Quão próximo deste texto hei de pregar, não sei; há nele o suficiente para responder a meu propósito, e é um texto sobre o qual se pode dizer muito. ¶
O plano de salvação não pode ser contado em um só discurso, nem em um dia, um mês ou um ano, pois é de eternidade a eternidade, como o Sacerdócio do Filho de Deus, sem princípio de dias nem fim de vida. O evangelho que vos declaramos conduz à vida eterna, e este reino é o reino de Deus que ele prometeu, pela boca de seus Profetas, que estabeleceria nos últimos dias — um reino que há de triunfar sobre todos os males que afligem a família humana, e introduzir a retidão eterna. ¶
O homem se afastou muito de seu Criador — muito longe da senda de retidão que seu Pai Celestial traçou para seus pés — e está andando por um caminho semeado de perigos; abandonou a verdadeira luz, e anda em trevas; rejeitou a sabedoria e a inteligência que vêm do Céu, e se tornou obscurecido pela ignorância e pela incredulidade, não conhecendo nem a Deus, nem o propósito de sua própria existência sobre a terra. Estas trevas e ignorância devem ser dissipadas pela pregação do evangelho, e todos quantos crerem no Senhor Jesus Cristo e andarem irrepreensivelmente em todas as ordenanças de Deus serão contados entre seus Santos e reunidos em seu reino, para serem mais instruídos nos princípios da vida eterna. ¶
O reino de Deus nos últimos dias há de triunfar sobre toda a terra, subjugar toda espécie de pecado, e destruir toda fonte de tristeza a que a humanidade oprimida tem estado sujeita. A obra de fazer dos reinos do mundo o reino de Deus e de seu Cristo já começou; e todos os habitantes da terra, sem exceção, ainda hão de reconhecer que Jesus é o Cristo, para a glória de Deus, o Pai. Toda a humanidade está individualmente interessada nesta Obra dos Últimos Dias, pois todos têm um futuro, seja glorioso ou inglório. ¶
O homem foi criado para um propósito glorioso — para uma vida que é eterna. Muito está compreendido nas duas palavras "vida eterna"; elas excluem inteiramente a morte. Não temos morte a pregar, pois jamais devemos praticar os princípios da morte, mas seguir o caminho que conduz à continuação das vidas. O mundo será revolucionado pela pregação do evangelho e pelo poder do Sacerdócio, e esta é a obra a que somos chamados a realizar. Em seu progresso, todo costume tolo e improveitoso, toda paixão profana, toda noção tola em política e religião, toda lei injusta e opressiva, e tudo o mais que seja opressivo ao homem, e que impeça seu progresso contínuo rumo à perfeição dos Seres Santos na eternidade, será removido até que a retidão eterna prevaleça sobre toda a terra. Tal foi o desígnio da pregação do evangelho nos dias dos Apóstolos. ¶
Está escrito no livro de Atos dos Apóstolos: "E não os achando, trouxeram com violência Jasom, e alguns irmãos, aos magistrados da cidade, clamando: Estes que têm alvoroçado o mundo, chegaram também aqui." Usando a mesma figura, os Élderes d'A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias são chamados para reendireitar o mundo. Virá-lo de cabeça para baixo é uma obra gigantesca, mas será feita, pois tanto os justos na terra quanto os santificados no céu estão trabalhando nisso, e todo o poder, tanto no céu quanto na terra, é dado ao Salvador por seu Pai. É nosso dever compreender plenamente os ditos e feitos do Salvador em sua missão na terra, a qual é vida para todos os que creem e perseveram até o fim na busca da vida eterna. ¶
Uma vida inteira é curta demais para relatar toda a extensão da missão do Salvador para com a família humana, mas ousarei usar um de seus ditos, em conexão com o que já citei do livro do Apocalipse. Quando foi levado perante Pilatos para ser julgado por sua vida, ele disse a Pilatos: "O meu reino não é deste mundo; se o meu reino fosse deste mundo, pelejariam os meus servos, para que eu não fosse entregue aos judeus; porém agora o meu reino não é daqui." Ligai este dito a "Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus," e poderemos compreender como o reino de Cristo não é deste mundo, porque é estabelecido em paz, ao contrário de todos os reinos mundanos, que são estabelecidos na guerra. O lema de seu reino é "paz na terra, boa vontade para com os homens," e, portanto, não segundo a ordem dos reinos mundanos. ¶
Foi observado esta manhã que o Livro de Mórmon em nenhum caso contradiz a Bíblia. Tem muitas palavras semelhantes às da Bíblia, e como um todo é uma forte testemunha da Bíblia. As revelações, quando passam de Deus para o homem, e do homem para sua linguagem escrita e impressa, não podem ser consideradas inteiramente perfeitas, embora possam ser tão perfeitas quanto possível dadas as circunstâncias; são perfeitas o bastante para responder aos propósitos do Céu neste tempo. ¶
O dito "O meu reino não é deste mundo," e o dito "Os reinos deste mundo se tornarão os reinos de Deus e de seu Cristo," pareceriam, à primeira vista, contradições evidentes; mas quando lidos em sua devida conexão, e por uma pessoa cuja mente é iluminada pelo poder do Espírito Santo, em vez de contradição entre eles, vê-se que existe uma perfeita harmonia. Joseph Smith, o Profeta dos últimos dias, tinha a feliz faculdade de reduzir as coisas do céu à capacidade das pessoas de entendimento comum, muitas vezes lançando, numa só frase, um dilúvio de luz sobre a escuridão dos séculos. Tinha o poder de atrair os espíritos das pessoas que o ouviam ao seu padrão, onde comungavam com objetos celestiais e princípios celestiais, unindo o celestial e o terreno — num único dilúvio confluente de inteligência celestial. Quando a mente é assim iluminada pelo Espírito de revelação, discerne-se claramente que os céus e a terra estão em estreita proximidade — que o tempo e a eternidade são um só. Podemos então compreender que as coisas de Deus são coisas que pertencem a seus filhos, e que a expressão, a forma e as afeições de seus filhos terrenos pertencem a seu Grande Pai e Criador. ¶
Alguns têm pensado que o reino que Jesus estabeleceu na terra, quando aqui esteve na carne, não era o reino que Daniel viu. Perdoai-me se discordo dessa visão e digo que era exatamente o reino que Daniel viu, mas não era ainda o tempo de estabelecê-lo em sua plenitude; não era ainda o tempo para o reino de Deus subjugar todos os outros reinos, como haveria de fazer nos últimos dias. ¶
Jesus veio estabelecer seu reino espiritual, ou introduzir um código de moral que exaltasse os espíritos do povo à piedade e a Deus, para que assim assegurassem para si uma gloriosa ressurreição e um título para reinar sobre a terra quando os reinos deste mundo se tornassem os reinos de nosso Deus e de seu Cristo. Veio também para se apresentar como o Salvador do mundo, para derramar seu sangue sobre o altar da expiação, e abrir o caminho da vida a todos os que creem. Quando Jesus veio para os seus, não o receberam, mas disseram: "Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo, e apoderemo-nos da sua herança;" e o agarraram, e o lançaram fora da vinha, e o mataram. Tivessem os judeus o recebido como herdeiro, e o tratado como tal, ele teria estabelecido seu reino entre eles naquele mesmo tempo, tanto espiritual como temporalmente; e teriam reunido as tribos perdidas que se afastaram de Jerusalém, teriam vencido seus inimigos, possuído a Palestina em paz, e se espalhado até as extremidades da terra, e possuído o reino debaixo de todo o céu. ¶
Ademais, na época em que os filhos de Israel saíram do Egito, se tivessem então recebido o evangelho que Moisés tinha para eles, o reino lhes teria sido dado, e nunca teria sido desfeito, e a casa de Israel jamais teria sido ferida e dispersa para se tornar escrava entre as nações. Se os filhos de Abraão, Isaque e Jacó, antes do cativeiro egípcio, tivessem sido fiéis, teriam recebido as chaves e o poder do reino, e jamais teriam ido ao Egito para sofrer quatrocentos anos de cativeiro; mas, por sua maldade, rejeitaram o reino. ¶
Quando Deus fala ao povo, ele o faz de maneira adequada às suas circunstâncias e capacidades. Falou aos filhos de Jacó por meio de Moisés, como a um povo cego e de dura cerviz, e quando Jesus e seus Apóstolos vieram, falaram com os judeus como a um povo obscurecido, ímpio e egoísta. Eles não quiseram receber o evangelho, embora apresentado a eles pelo Filho de Deus em toda a sua retidão, beleza e glória. Se o Senhor Todo-Poderoso enviasse um anjo para reescrever a Bíblia, ela seria, em muitos pontos, muito diferente do que é agora. E ousarei até dizer que, se o Livro de Mórmon fosse agora reescrito, em muitos casos diferiria substancialmente da tradução atual. Conforme as pessoas estejam dispostas a receber as coisas de Deus, assim os céus derramam suas bênçãos. Se o povo é de dura cerviz, o Senhor pode lhe dizer muito pouco. ¶
O reino que Jesus veio estabelecer é o reino que Daniel viu, mas aquela geração de dura cerviz e rebelde não quis receber o evangelho, e ele não estabeleceu plenamente seu reino naquele tempo. Se o Senhor lhes tivesse, de modo consistente, dado poder sobre seus inimigos, a quem estavam sujeitos enquanto nesse estado de rebelião contra Deus e suas leis, ter-se-iam tornado mais ímpios do que os romanos ou outras nações pagãs da terra. Se lhes tivesse dado poder sobre os egípcios nos dias de Moisés, ter-se-iam tornado mais ímpios do que os egípcios, e teriam usado este poder salvador para trazer sobre eles uma destruição mais certa e terrível. ¶
O Senhor chamou Moisés, e ele esteve em pé em meio aos trovões e relâmpagos do Monte Sinai. Moisés era um homem bom e grande, mas havia vivido com um povo ímpio, murmurador e rebelde, e por ele fora tantas vezes exasperado, que não podia olhar para Deus em sua glória, mas podia ouvir sua voz e conversar com seu Pai Celestial na coluna de nuvem e de fogo. Numa ocasião, em companhia de setenta Élderes de Israel, foi-lhe permitido ver as partes posteriores do Todo-Poderoso. Recebeu, da própria boca de Deus, a lei dos mandamentos carnais para Israel. Creio de todo o coração que, se os filhos de Israel tivessem estado prontos para receber o evangelho em toda a sua plenitude, o jugo dos mandamentos carnais jamais teria sido posto sobre o seu pescoço. Moisés era Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, e, contudo, participou de tal modo dos pecados dos filhos de Israel que não pôde ver a face de Deus. ¶
O próprio reino que Jesus disse não ser deste mundo teria, em seus dias, sido permanentemente estabelecido neste mundo, se o povo o pudesse ter recebido; mas eles não quiseram ter o homem Cristo Jesus a reinar sobre eles; afastaram-se dos santos mandamentos, e preferiram fábulas. Quando Jesus declarou que seu reino não era deste mundo, não quis transmitir a ideia de que não tinha direito de estar sobre esta terra, mas que seu reino era um reino justo e santo, e não como os reinos ímpios do mundo; e a impiedade do mundo era tal que ele não pôde então estabelecer seu reino sobre esta terra. ¶
Quando Moisés subiu ao monte para conversar com o Deus de Israel, ouviu-se o clamor no acampamento: "onde está este Moisés?" E fizeram um bezerro de fundição com as joias que haviam pedido emprestadas aos egípcios, e disseram: "Estes são teus deuses, ó Israel, que te tiraram da terra do Egito. E Aarão, vendo isso, edificou um altar diante dele; e Aarão apregoou, e disse: Amanhã será festa ao Senhor. E no dia seguinte madrugaram, e ofereceram holocaustos, e trouxeram ofertas pacíficas; e o povo assentou-se a comer e a beber; depois levantaram-se para divertir-se." Havia tanto bom senso neste procedimento quanto há, nos dias de hoje, em as pessoas adorarem sua propriedade e seu dinheiro. ¶
A terra é do Senhor, e a sua plenitude, e ele deseja estabelecer nela o seu reino. Não creio que alguém venha a levantar um único argumento para provar que o Senhor não é dono desta terra e de tudo o que nela há. Todos os cristãos reconhecem que a terra é do Senhor, e a sua plenitude, e que Jesus é o Cristo e herdeiro de todas as coisas. ¶
Uma excelente ideia apresentada esta manhã, ousarei desenvolver um pouco mais. Houve um tempo em que a prova de um cristão era a confissão de Cristo. Na primeira Epístola de João está escrito: "Amados, não creiais em todo espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo. Nisto conhecereis o Espírito de Deus: todo espírito que confessa que Jesus Cristo veio em carne é de Deus; E todo espírito que não confessa que Jesus Cristo veio em carne não é de Deus; e tal é o espírito do anticristo, do qual já ouvistes que há de vir, e já agora está no mundo." Esta não é uma prova para esta geração, pois todos os homens do mundo cristão confessam que Jesus Cristo veio em carne. Esta geração, porém, não ficou sem uma prova. Tenho ensinado por trinta anos, e ainda ensino, que aquele que crê em seu coração e confessa com sua boca que Jesus é o Cristo, e que Joseph Smith é seu Profeta para esta geração, é de Deus; e aquele que não confessa que Jesus veio em carne e enviou Joseph Smith com a plenitude do evangelho a esta geração, não é de Deus, mas é anticristo. Todos os que confessam que Joseph Smith foi enviado por Deus nos últimos dias, para lançar o fundamento de seu reino eterno, que não mais será derrubado, e continuam a guardar seus mandamentos, são nascidos de Deus. Todos os que creem em seus corações e confessam com suas bocas que Joseph Smith é um verdadeiro Profeta, ao mesmo tempo que se esforçam com todo o seu poder por viver os santos princípios que Joseph, o Profeta, revelou, estão de posse do Espírito Santo de Deus e têm direito a uma plenitude. Quando tais homens vão ao mundo pregar o evangelho, ainda que não conheçam uma letra sequer de um livro, farão mais bem real ao homem que erra do que os grandes e sábios jamais poderiam fazer, mesmo auxiliados por toda a sua erudição e influência mundana, na ausência do dom do Espírito Santo. Quando o espírito do pregador está imbuído do Espírito e do poder de Deus, suas palavras penetram no entendimento dos íntegros de coração, que discernem a verdade e imediatamente a abraçam para sua vantagem eterna. ¶
Toda pessoa que busca conhecer o que é certo, compreender todo princípio de verdade pertinente à terra e aos céus, e, pela obediência às leis do evangelho, obter o Espírito da verdade da grande Fonte da verdade, quando ouve uma verdade, seja ela moral, religiosa, científica ou mecânica, seja pertinente a Deus, ao homem, aos céus ou à terra, sente que essa verdade lhe é afim, e lhe parece que já a conhecia por toda a sua vida. Não obstante os terríveis efeitos da queda do homem, quase todos os homens se deleitam na verdade e na retidão. Se os homens não são retos eles mesmos, de modo geral honram e reverenciam uma pessoa reta mais do que fazem com os ímpios e perversos. Alguns, nestes últimos dias, ousaram deter a corrente da iniquidade; desafiando o dedo do escárnio, ergueram as mãos ao Céu, dizendo: "somos de Deus." Repetem um glorioso lema: "O reino de Deus ou nada." É, para eles, "O Céu ou nada." O Senhor há de reinar e governar. ¶
Não nos produzimos a nós mesmos. Não fizemos a terra, nem estendemos os céus estrelados. Não buscamos a sabedoria daquele que formou os fundamentos do grande abismo, nem exploramos a vastidão de sua habilidade na formação das tribos aquáticas. "Ele é o que transporta as montanhas, sem que o sintam, e o que as transtorna no seu furor. O que remove a terra do seu lugar, e as suas colunas estremecem. O que fala ao sol, e este não sai, e sela as estrelas. O que sozinho estende os céus, e anda sobre os altos do mar. O que faz a Ursa, o Órion, e o Sete-Estrelo, e as recâmaras do sul. O que faz coisas grandes, que não se podem esquadrinhar, e maravilhas tais que não se podem contar." ¶
A filosofia tem tentado buscar a Deus, mas fica atônita diante das grandes e maravilhosas obras do grande Supremo. Reconhece um grande Planejador e Formador do universo, mas não encontra como se aproximar dele. Este grande Ser é o Deus dos Santos dos Últimos Dias; a quem concedemos o direito de reinar sobre a obra de suas próprias mãos. É seu direito controlar o ouro e a prata, o trigo e a flor de farinha, sim, todos os elementos já enumerados pelo olhar investigativo da filosofia e da ciência, e aqueles que os mortais, em seu estado presente, não conseguem descobrir. Tem algum princípio profano, alguma influência perversa que conduz à morte, o direito de controlar a capacidade e o poder de fazer o bem que Deus depositou no homem? Não. Só Deus tem o direito de controlar a inteligência que há na família humana, pois é ele quem a dá. ¶
As pessoas religiosas falam muito em fazer grandes e maravilhosas coisas pelo Senhor — em fazer isto, aquilo e aquilo outro para a glória de Deus. Todo bem que o homem realiza é, em primeiro lugar, para seu próprio benefício e bem-estar eterno, se ele persevera em fazer o bem, e, em segundo lugar, para o bem comum dos outros, na medida em que seu exemplo e a influência do bem feito afetam os demais. Podemos, para efeito de comparação, imaginar um grande rei que tem muitos reinos para distribuir e muitos filhos a quem dá-los, mas um de seus filhos não quer ter seu pai régio a reinar sobre ele, nem aceitará nenhum de seus favores. Ora, se alguém sofre perda nesse caso, é o filho orgulhoso e rebelde; o pai pode dar o reino que de outro modo teria dado ao filho desviado a um súdito mais digno. Ele é todo-poderoso, e concede capacidade a quem quiser, para que se torne poderoso como ele mesmo. "Se eu tivesse fome, não to diria, pois meu é o mundo e toda a sua plenitude. Comerei eu carne de touros? Ou beberei sangue de bodes? Oferece a Deus sacrifício de louvor, e paga ao Altíssimo os teus votos." ¶
As gerações de homens, desde o princípio, têm se recusado a prestar homenagem a seu Deus, e a render-lhe o que lhe pertence. Se os homens servem a Deus, é para vantagem própria; mas supõem que sacrificam muito por Deus e lhe prestam um grande serviço, e estão enriquecendo a ele e empobrecendo a si mesmos. Rendei a Deus o que é de Deus. Pouco me importa se é ouro, prata ou cobre. Quando os homens extraem os metais preciosos da terra, eles respiram o ar, bebem a água e comem o alimento que pertencem a Deus. ¶
Eu poderia expor as razões pelas quais os servos de Deus, desde o princípio, não têm conseguido estabelecer seu reino sobre a terra, mas não tenho tempo para isso hoje. Nestes últimos dias, os reinos deste mundo se tornarão "os reinos de nosso Deus e de seu Cristo," e aqueles que têm ouro e prata e riquezas de outras espécies, e se recusam a devotá-los ao Senhor, são cegos e nus, e destituídos daquela sabedoria que vem do alto. O fôlego que está em suas narinas não é, na verdade, seu próprio. Todo o povo vive da munificência do Todo-Poderoso, e, contudo, dizem que os metais preciosos lhes pertencem, e devotarão essa riqueza a seu próprio serviço, se regalarão em luxo, e farão como bem entenderem. Aqueles que possuem a riqueza deste mundo a possuem por permissão do Todo-Poderoso, e então prosseguem desnecessariamente no caminho da destruição. Até quando? Até que sua carreira se acabe. ¶
Todos devem ter o privilégio de provar a Deus e aos anjos o que farão com o talento e a capacidade que Deus lhes deu, se desperdiçarão suas bênçãos satisfazendo apetites profanos, ou as usarão do modo que Deus designou que fizessem. Esta é uma grande razão pela qual os homens têm permissão para agir como agem. É uma doutrina ortodoxa que Deus decretou tudo o que acontece. Ele decretou que muitas coisas viessem a acontecer, mas não todas as coisas. Não decretou que um homem blasfemasse seu nome, e que outro se encontrasse frequentemente de joelhos, orando a ele; isto é deixado à livre vontade da criatura. Todos os habitantes da terra tiveram o privilégio de se provarem diante de Deus, em sua vida, se se deleitavam no que era certo ou no que era errado; e, de acordo com isso, aqueles que estiveram sem lei serão julgados sem lei. Em que são melhores, aos olhos do Céu, aqueles que depositam suas afeições sobre a riqueza terrena, do que os filhos de Israel que adoraram um bezerro? ¶
Aqueles que desejam unir-se a nós nesta grande obra devem fazer como nós fizemos, para obter o que obtivemos. Não é da nossa alçada questionar a validade de nenhuma das leis e ordenanças de Deus. Não nos importa quão simples seja a ordenança a que ele nos exige submeter, para alcançar determinado fim. Ele disse: "quem crer e for batizado será salvo." Se ele instituiu o batismo na água para a remissão dos pecados, não é da nossa alçada questionar seu direito de fazê-lo, contendendo com o modo desta ordenança. Se ele nos tivesse dito para cavar um buraco no chão e nos enterrarmos por certo período de tempo, seria seu direito assim ordenar, e nossa vantagem obedecer. Sempre que o evangelho foi pregado em qualquer época do mundo, a ordenança do batismo esteve em vigor. Teve a mesma validade nos dias de Adão, Enoque e Noé, como nos dias de Jesus Cristo e de seus Apóstolos, ou como tem agora. ¶
Um anjo do Senhor visitou Adão, quando Adão estava oferecendo sacrifício. O anjo lhe perguntou por que oferecia sacrifício. Adão respondeu: "Não sei, mas isto eu sei: o Senhor me ordenou, portanto ofereço sacrifício." Pode-se dizer que Adão era muito ignorante. Foi desígnio do Senhor que seu conhecimento anterior se afastasse dele. ¶
"Jesus respondeu, e disse-lhe (a Nicodemos): Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo não pode ver o reino de Deus. Disse-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Porventura pode tornar a entrar no ventre de sua mãe, e nascer? Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus." Um homem deve nascer de novo antes de poder ver o reino de Deus; e deve nascer da água e do Espírito, antes de nele poder entrar. ¶
Pode-se perguntar se alguém pode ser salvo, exceto os que são batizados. Sim, todos os habitantes da terra serão salvos, exceto aqueles que pecam contra o Espírito Santo. Virão eles à presença do Pai e do Filho? Não, a menos que sejam batizados para a remissão dos pecados, e vivam fielmente na observância das palavras da vida, todo o resto de seus dias. "Na casa de meu Pai há muitas moradas." "Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos são os que entram por ele; porque estreita é a porta, e apertado o caminho que leva à vida, e poucos há que o encontrem." Foi feita a Joseph Smith a pergunta se todos seriam condenados, exceto os Santos dos Últimos Dias. Ele respondeu: "sim, e a maior parte dos Santos dos Últimos Dias, a menos que se arrependam e façam melhor do que têm feito." ¶
A glória daqueles que não têm permissão de entrar na presença do Pai e do Filho será maior do que os mortais podem imaginar, em glória, excelência, prazer requintado e intenso júbilo. Não entrou no coração do homem conceber a grandeza de sua glória. Mas a glória daqueles que entram na presença de Deus excede todas estas em glória, assim como a luz do sol excede a luz da lua e das estrelas. Todas estas diferentes glórias são ordenadas para se ajustarem às capacidades e condições dos homens. ¶
Permiti-me dizer uma palavra de louvor à congregação diante de mim. Vejo aqui pessoas reunidas de quase todas as nações da terra, e trouxeram consigo seus costumes nacionais, tradições, educação, modas e língua; contudo, este povo misto habita junto em paz: toda a nacionalidade gradualmente se dissolve, e vemos uma fusão universal em um só povo, possuindo o mesmo sentimento e espírito de nossa santa religião, todos decididos a promover o reino de Deus sobre a terra, aguardando o dia do descanso. Que outra comunidade precisa menos dos serviços de advogados, magistrados e juízes do que esta comunidade? Isto é uma alegria para mim. ¶
O Senhor tem o propósito de estabelecer seu reino em nossos dias, e os mandamentos que ele nos exige obedecer, e os deveres que nos torna obrigatórios, são fáceis. Podemos cumprir tudo o que ele exige de nós, sem que isso nos prejudique em nada. ¶
Alguns argumentam que não há virtude na água, mas há virtude naquele que deu o mandamento, e ele tem poder para perdoar pecados. Se eu vos ordenasse que lavásseis vossos corpos, e vós vos recusásseis a fazê-lo, vossa imundície se apegaria a vós, e só vós sofreríeis o incômodo. ¶
Partimos o pão, que representa o corpo do Senhor, conforme ele ordenou, em memória dele, e de que ele virá novamente à terra quando os reinos deste mundo se tornarem os reinos de nosso Deus e de seu Cristo. Derramamos água ou vinho em memória de seu sangue, que foi derramado, e como sinal do tempo em que ele há de beber de novo do fruto da videira conosco no reino de seu Pai, quando vier outra vez, e os reinos deste mundo se tornarem os reinos de nosso Deus e de seu Cristo. Os reinos deste mundo devem ser preparados para sua vinda pela proclamação do evangelho, ou serão eliminados da existência. ¶
O mundo inteiro perdeu a confiança em si mesmo e em seu Deus. Como pode ela ser restaurada? Começando a servir a Deus, e então procurando induzir todo homem e toda mulher a se unirem, de coração e mão, a esta reforma moral. Associando-vos com aqueles em cujas mãos podeis confiar vossa riqueza, honra, bom nome, virtude e integridade, e convidando a se unirem a vós todos os que são cheios de integridade e honra, e que vos tratarão como os anjos de Deus o fariam, se aqui estivessem. Devemos restaurar a integridade e a confiança que se perderam para o mundo. Os reis em seus tronos têm de pagar por suas posições, pois não podem confiar-se nas mãos de seus servidores sem suborno. Apenas a aparência de honra, integridade e confiança se encontra no mundo, e mesmo essa custa caro; contudo, esta observação geral tem suas honrosas exceções. Devemos encontrar homens e mulheres em quem possamos confiar tudo o que nos é sagrado, ou o reino de Deus jamais poderá ser estabelecido sobre a terra. O Senhor não reconhecerá um povo que falseia sua palavra e não tem virtude; não confiará por muito tempo a um homem desse tipo nenhum dos assuntos de seu reino. Ele não confiará a um povo sem virtude seu Santo Sacerdócio. Não confiará a um povo propriedade — riqueza terrena — que a cobice e a use para satisfazer suas luxúrias, ou de outro modo a devote ao poder do inimigo de Deus e do homem. ¶
O dever dos Santos dos Últimos Dias é fazer avançar o reino de Deus nos últimos dias, moral, religiosa e politicamente. Hão de fazê-lo? Creio que sim, com a ajuda de Deus. Não importa o que os inimigos de Deus e de sua causa façam com nosso nome, ou com nossos bens; não importa quantas vezes nos arranquem de nossas habitações e nos expulsem de cidade em cidade, e de condado em condado, que cada um de nós se encontre firme sobre o pedestal da verdade e da virtude, não maculando nossas pessoas com pecado de nenhuma forma. Estimemos tudo o que nos é permitido possuir como dado a nós pelo Senhor; seja ouro, prata, bens, casas, terras, ou esposas e filhos, tudo é do Senhor. Estas bênçãos apenas nos são emprestadas. Quando tivermos passado por esta provação terrena e tivermos provado aos céus que somos dignos de sermos coroados com coroas de glória, imortalidade e vidas eternas, então o Senhor dirá que estas coisas são nossas; mas, até lá, nada possuímos. ¶
Hão de todos crer como nós cremos? Não sei. Ficaria satisfeito se todos os homens cressem na verdade e praticassem a retidão. Se possuem a verdade, desejo que sejam tão generosos com ela quanto eu sou. Livremente comunico a meus semelhantes toda a verdade que conheço, e todas as regras de piedade que possuo. Minha religião me ensina a abraçar toda a verdade nos céus, na terra, debaixo da terra, e no abismo sem fundo, se ali houver alguma. Meu credo abraça toda a verdade. Se tendes uma verdade que eu não tenho, fazei-me sabê-la, e ela chegará a onde pertence; e se eu tenho uma verdade que vós não tendes, sois bem-vindos a ela. Não há necessidade de debate e contenda a respeito da verdade e do erro, pois o debate tende a criar um espírito de amargura. ¶
Não há necessidade de guerra e derramamento de sangue, pois a terra é suficientemente grande para todos. Os elementos de que esta terra é composta estão por toda a sua volta. Os filósofos dizem que a atmosfera tem quarenta milhas de profundidade. Seja como for, não há limites para os elementos que compõem mundos como este. Este globo terrestre, esta pequena substância opaca lançada ao espaço, é apenas um ponto no grande universo; e, quando for celestializado, voltará à presença de Deus, onde foi primeiramente formado. Tudo pertence a Deus, e aqueles que guardarem sua lei celestial voltarão a ele. ¶
Muitas perguntas são feitas sobre o que será daquela porção da humanidade que morreu sem lei. Quando voltarmos para reedificar os lugares desolados de Sião, então se cumprirá a Escritura — "A quem vencer, eu o farei coluna no templo do meu Deus, e dele nunca sairá; e escreverei sobre ele o nome do meu Deus, e o nome da cidade do meu Deus, o da nova Jerusalém, que desce do céu do meu Deus, e o meu novo nome." Os servos de Deus oficiarão pelos mortos nos templos de Deus que serão construídos. O evangelho é agora pregado aos espíritos em prisão, e quando chegar o tempo de os servos de Deus oficiarem por eles, os nomes daqueles que receberam o evangelho no espírito serão revelados pelos anjos de Deus e pelos espíritos dos homens justos aperfeiçoados; também os lugares de seu nascimento, a época em que viveram, e tudo o mais a seu respeito que seja necessário registrar na terra; e então serão salvos, de modo a encontrar admissão à presença de Deus, com seus parentes que oficiaram por eles. Os ímpios serão limpos e purificados como pelo fogo; alguns deles serão salvos como pelo fogo. Alguns serão entregues ao açoite de Satanás, para que seus espíritos possam ser salvos no dia do Senhor Jesus. Outros receberão seus corpos, mas não poderão ser salvos nos reinos e moradas que estão na presença de Deus. Todos os filhos dos homens receberão uma glória nas moradas de Deus, segundo suas capacidades, e recompensas segundo seus atos na carne. ¶
Irmãos e amigos, desprezais naturalmente uma doutrina como esta, ou ela encontra em vossos peitos uma resposta de acolhimento? Minha alma diz: Aleluia, a cada momento em que penso nas amplas provisões que Deus fez para seus filhos e filhas. Eles não se revolverão no inferno por uma eternidade sem fim, mas hão de se elevar cada vez mais, e continuar a crescer em inteligência e amor à verdade à medida que avançam. Haverá um progresso eterno no conhecimento de Deus. ¶
Que Deus abençoe o povo. Amém. ¶