Poligamia
Orson Pratt
Vim a este Tabernáculo nesta manhã sem qualquer expectativa de ser chamado a dirigir-me à congregação; mas como me foi pedido que pregasse, cedo de bom grado às solicitações de meus irmãos, orando para que o Espírito Santo me imparta algo para vossa edificação. O ofício do Espírito, quando dado nos tempos antigos, era manifestar a verdade—avivar a memória do homem de Deus, para que pudesse comunicar claramente coisas que uma vez aprendera, mas parcialmente esquecera. ¶
Por exemplo, os Apóstolos ouviram, durante três anos e meio, muitos sermões e uma vasta quantidade de conversas e ensino particular. O ofício do Espírito da verdade era trazer-lhes à memória as coisas que Jesus lhes ensinara anteriormente. Assim é o ofício desse mesmo Espírito nestes dias, trazer à nossa memória as palavras dos antigos Profetas e Apóstolos, e as palavras de Jesus, na medida em que tenhamos fé e confiança em Deus. ¶
Nossas tradições nos informam que, se um homem tem duas esposas, isso é grande pecado e transgressão contra as leis do céu e as leis do homem. A congregação que agora se assenta diante de mim, tanto homens quanto mulheres, absorveu essas tradições antes de abraçar as doutrinas dos Santos dos Últimos Dias. Fomos ensinados estritamente, por nossos pais, por obras de teologia, por nossos vizinhos, por nossos ministros do púlpito, pela imprensa, e pelas leis da cristandade, que a pluralidade de esposas é um grande crime. Muitos de nós, talvez, nunca pensaram em questionar a correção dessa tradição, para saber se era, na realidade, um crime ou não. Aquilo que é geralmente condenado por nossa nação, por nossos pais e parentes, por nossos mestres públicos, e pelas leis da cristandade em geral como crime, é considerado criminoso por nós. Se perguntado por que a poligamia é considerada um crime, nossa única resposta é: Porque a falsa tradição assim o diz—a opinião popular diz que é um crime. Ora, se é um crime—se pode ser provado ser um crime pela lei de Deus, então os habitantes deste Território, no que diz respeito a esta única instituição, estão em uma condição terrível; pois é bem sabido que esta prática é geral por todo este Território, com poucas exceções. Muitas famílias, não apenas em Salt Lake City, mas por todos os assentamentos, abraçaram na prática esta doutrina, crendo ser ela uma instituição Divina, aprovada por Deus e pela Bíblia. ¶
Investigaremos um pouco este princípio para a informação dos estrangeiros presentes. Indaguemos se, de fato, a pluralidade de esposas jamais foi sancionada pelo Deus do céu—se ele mesmo é o Autor dela, ou se apenas a permitiu como um crime, do mesmo modo que permite que muitos crimes conhecidos existam. O Senhor permite que um homem se embriague; permite que minta, roube, mate, tome seu nome em vão, e o suporta por longo tempo, e por fim o trará a juízo: ele terá de prestar contas de todas essas coisas. ¶
Se o Senhor permite que aquilo chamado de poligamia exista como um crime entre os Santos dos Últimos Dias, ele nos trará a juízo e nos condenará por essa coisa. É necessário que nós, como Santos dos Últimos Dias, certamente compreendamos este assunto, e o compreendamos, também, de antemão, e não esperemos até sermos trazidos a prestar contas. Se um homem estivesse no meio de uma nação onde não estivesse completamente familiarizado com suas leis, seria grato por obter tal informação que o guardasse de cometer crime ignorantemente: não desejaria permanecer na ignorância até que o braço forte da lei o agarrasse e o trouxesse perante o tribunal da justiça, onde seria forçado a entrar em uma investigação pública de seus atos, e ser punido por eles. Tampouco nós, como Santos dos Últimos Dias, desejamos esperar na ignorância até sermos trazidos perante o grande tribunal, não do homem, mas de Deus. ¶
Investiguemos, portanto, cuidadosamente a importante questão—É a poligamia um crime? É condenada na Bíblia, seja no Antigo ou no Novo Testamento? Já a condenou Deus por sua própria voz? Já foram seus anjos enviados para informar às nações que praticaram esta coisa que estavam em transgressão? Já falou ele contra ela por meio de algum escritor inspirado? Já condenou algum Patriarca, Profeta, Apóstolo, anjo, ou mesmo o próprio Filho de Deus, a poligamia? Podemos dar uma resposta geral, sem investigar este assunto, e dizer ao mundo: Não temos informação desse tipo registrada, exceto o que encontramos no Livro de Mórmon. Ali foi positivamente proibido que fosse praticada pelos antigos nefitas. ¶
O Livro de Mórmon, portanto, é o único registro (que professa ser Divino) que condena a pluralidade de esposas como sendo uma prática extremamente abominável diante de Deus. Mas mesmo esse livro sagrado faz uma exceção, em substância, como segue—"A menos que eu, o Senhor, ordene ao meu povo." O mesmo Livro de Mórmon e o mesmo artigo que ordenou aos nefitas que não se casassem com mais de uma esposa fez uma exceção. Que isto se compreenda—"A menos que eu, o Senhor, lhes ordene." Podemos tirar disso a conclusão de que havia certas coisas não corretas aos olhos de Deus, a menos que ele as ordenasse. Podemos tirar a mesma conclusão da Bíblia, de que havia muitas coisas que o Senhor não permitiria que seus filhos fizessem, a menos que ele particularmente lhes ordenasse fazê-las. ¶
Por exemplo, Deus deu a Moisés mandamentos expressos em relação a matar. "Não matarás." E este não é um daqueles mandamentos que foi abolido pela introdução do Evangelho; mas é um mandamento que deveria continuar enquanto o homem continuasse sobre a terra. Foi nomeado pelos Apóstolos como um que era obrigatório tanto para o cristão quanto para o judeu. "Não matarás." Todo aquele que lê este sagrado mandamento de Deus presumiria imediatamente que qualquer indivíduo encontrado matando e destruindo seu semelhante estaria em desobediência ao mandamento de Deus, e estaria cometendo um grande crime. ¶
O mesmo Deus que deu esse mandamento aos filhos de Israel, dizendo, "Não matarás," depois lhes deu um mandamento de que, quando fossem à guerra contra uma cidade estrangeira, ou uma cidade não incluída na terra de Canaã, "quando fores à guerra contra ela, e o Senhor teu Deus a entregar em tuas mãos, ferirás todo homem dela ao fio da espada: Mas as mulheres, e as crianças... tomarás para ti." (Ver Deuteronômio 20:13-14.) ¶
Novamente, quando Israel fez cativos os midianitas, foram ordenados a "matar todo menino entre as crianças, e matar toda mulher que houvesse conhecido homem, deitando-se com ele. Mas todas as meninas, que não conheceram homem deitando-se com ele, guardai-as vivas para vós." (Ver Números 31:17-18.) ¶
A questão é: Era pecado diante do Deus Altíssimo que os filhos de Israel obedecessem à lei a respeito de seus cativos, não obstante a lei anterior, "Não matarás"? Certamente não. Vemos, assim, que era uma lei dada pelo mesmo Deus e ao mesmo povo, de que deveriam matar seus cativos, deveriam matar as mulheres casadas, seus maridos, e seus filhos homens—que deveriam preservar com vida apenas as que jamais haviam se casado e que jamais haviam conhecido homem. "Guardai-as vivas para vós," diz a lei de Deus. ¶
Aqui, então, percebemos que há coisas que Deus proíbe, e que seria abominável que seu povo fizesse, a menos que ele revogasse esse mandamento em certos casos. Porque certos indivíduos entre os nefitas, nos tempos antigos, foram expressamente proibidos de tomar duas esposas, isso não impedia o Senhor de lhes dar um mandamento, e fazer uma exceção, quando julgasse apropriado levantar semente para si mesmo. ¶
A substância da ideia naquele livro é que—Quando eu, o Senhor, vos ordenar que levanteis semente para mim mesmo, então será correto; mas de outro modo escutareis estas coisas—a saber, a lei contra a poligamia. Mas quando vamos ao registro judaico, não encontramos nada que proíba os filhos de Israel de tomarem tantas esposas quantas julgassem apropriado. Deus deu leis regulando a sucessão de bens nas famílias poligâmicas. ¶
Voltai ao capítulo 21 de Deuteronômio, versículo 15, e ali está registrado que, "Quando um homem tiver duas mulheres, uma a quem ama e outra a quem odeia, e a amada e a odiada lhe derem filhos, e o filho primogênito for da odiada: Será que, no dia em que fizer herdar a seus filhos o que tiver, não poderá dar a primogenitura ao filho da amada, preterindo o filho da odiada, que é o primogênito: Mas ao filho da odiada reconhecerá por primogênito, dando-lhe dobrada porção de tudo quanto tiver; pois ele é o princípio de sua força; o direito da primogenitura é dele." ¶
Nesta lei o Senhor não desaprova o princípio. Aqui teria sido uma grande ocasião para ele fazê-lo, se fosse contrário à sua vontade. Em vez de dizer, Se encontrardes um homem que tenha duas esposas, ele deve ser excluído da congregação de Israel, ou deve divorciar-se de uma e reter a outra, ou deve ser posto à morte, por presumir casar-se com duas esposas, ele considera ambas as mulheres suas esposas legítimas, e dá uma lei de que o filho da esposa odiada, se for o primogênito, herdará de fato a porção dobrada de seus bens. Isso se torna uma lei permanente em Israel. Não prova isso claramente que o Senhor não condenava a poligamia, mas a considerava legal? Que ele não considerava uma dessas esposas uma rameira ou uma mulher má? Não prova que ele contava a odiada tanto quanto esposa como a amada, e seus filhos tão legítimos aos olhos da lei quanto os dela? ¶
Novamente, voltemos aos dias dos Patriarcas antes de a lei de Moisés ser introduzida entre o povo, e encontramos o mesmo princípio ainda existindo e aprovado pelo Deus do céu. Já ouvi muitos de nossos opositores argumentar que a lei de Moisés aprovava uma pluralidade de esposas; mas que não deveria ser assim sob outras dispensações—como quem diz, foi meramente dada por causa da dureza de seus corações. Mas tal afirmação não se encontra na Bíblia. Posso encontrar uma declaração de nosso Senhor e Salvador de que o divórcio de uma esposa foi permitido nos dias de Moisés por causa da dureza dos corações do povo; mas não posso encontrar nenhuma passagem nas palavras do Salvador, ou dos Apóstolos e Profetas, ou na lei, de que o tomar outra esposa fosse por causa da dureza de seus corações. Há bastante diferença entre tomar esposas e repudiá-las. ¶
Esta lei da pluralidade, como vou provar, não apenas existiu sob a lei de Moisés, mas existiu antes dessa lei, sob a dispensação Patriarcal. E que tipo de dispensação era essa? Já foi provado ao povo neste Território, vez após vez, que a dispensação em que os Patriarcas viveram era a dispensação do Evangelho—que o Evangelho foi pregado a Abraão assim como ao povo nos dias dos Apóstolos; assim diz Paulo; e o mesmo Evangelho, também, que foi pregado nos dias dos Apóstolos, foi pregado a Abraão. "A escritura, prevendo que Deus justificaria os gentios pela fé, pregou antes o evangelho a Abraão," etc. O mesmo Evangelho pelo qual os gentios seriam justificados era o mesmo Evangelho que Jesus e seus Apóstolos pregaram, e que antes fora pregado a Abraão. Se pudermos descobrir que, sob o Evangelho pregado a Abraão, a poligamia era permitida, o Evangelho pregado por Jesus, sendo o mesmo, é claro que não a condenaria. Jacó, entendemos, saiu da casa de seu pai para peregrinar a distância da terra que lhe fora prometida; e enquanto ali peregrinava, casou-se com Lia, uma das filhas de Labão, depois de ter servido fielmente sete anos. Era costume comprar esposas naqueles dias: eram mais caras do que hoje em dia. É verdade que foi enganado: esperava ter se casado com Raquel; mas, presumo, o velho costume oriental de usar véus enganou Jacó, que não pôde exatamente distinguir se era Lia ou Raquel até depois de casado. Então serviu mais sete anos para obter Raquel. Eis aqui uma pluralidade de esposas. ¶
Apareceu o Senhor a Jacó depois disso? Sim. Castigou-o ele? Não. Enviou-lhe seus anjos depois disso? Sim: hostes deles vieram a ele. Era um homem de fé tão poderosa, e seu coração tão puro diante de Deus, que pôde agarrar um deles e lutar com ele a noite inteira, tal como as pessoas lutam nas ruas aqui, só que não praguejavam; e, presumo, não haviam bebido uísque; e lutaram com todas as suas forças. Não suponho que o anjo, a princípio, exercesse fé alguma peculiar, mas meramente força física. Foi incapaz de derrubar Jacó; e Jacó, como um príncipe, prevaleceu com Deus; mas começou a suspeitar que era algo mais do que um homem que lutava com ele, e começou a indagar seu nome; e por fim o anjo, decidido a não ser vencido, estendeu um de seus dedos, e tocou um dos tendões de Jacó, e ele caiu. Informou este anjo a Jacó que ele era um mísero poligamista—um refugo da terra, indigno de habitar na sociedade dos homens? Não. Ele foi recomendado como um grande príncipe, e um que teve poder para prevalecer com um anjo a noite toda, até que o anjo exerceu sobre ele seu poder miraculoso. ¶
Este mesmo Jacó conversou com Deus, ouviu sua voz, e o viu; e em todas aquelas visões e gloriosas manifestações feitas a ele, não encontramos nenhuma repreensão pela poligamia. Certamente, se o Senhor não pretendia aprovar um crime, o teria repreendido pela poligamia, se a poligamia fosse um crime. Se não pretendesse que Jacó fosse de cabeça para a destruição, teria lhe dito que havia tomado duas esposas, e isso não era correto; mas, em vez disso, abençoou grandemente essas esposas de Jacó, e derramou seu Espírito sobre elas. Lia lhe deu quatro filhos, e então se tornou por um tempo estéril. Vendo que havia parado de dar à luz, deu Zilpa—uma mulher que morava com eles, a Jacó por esposa, embora ele já tivesse duas; e Zilpa levantou filhos a Jacó. Lia já havia dado à luz vários filhos, e havia parado de dar à luz. Fora mais relutante em dar sua serva Zilpa a Jacó por esposa do que Raquel fora em dar Bila. Vendo que o Senhor estava prestes a amaldiçoá-la com esterilidade, por não agir segundo o exemplo de sua irmã mais nova, deu Zilpa a Jacó. Então o Senhor atendeu à sua oração, e Lia disse—"Deus me deu a minha recompensa, pois dei minha serva ao meu marido." (Ver Gênesis 30:18.) ¶
Quem já ouviu falar de o Senhor ouvir a oração de alguém, porque essa pessoa estava fazendo um mal? Se a poligamia fosse um crime, Deus a teria condenado, por ela ter dado sua serva a seu marido. Não podemos supor que qualquer mulher não familiarizada com a lei e o mandamento do Altíssimo, e crendo ser pecaminoso que seu marido tivesse duas esposas, se expressasse dessa maneira—O Senhor ouviu minha oração e me deu o quinto filho, porque dei minha serva a meu marido por esposa. Isto nos mostra que a esposa de Jacó, Lia, realmente considerava isso algo agradável aos olhos de Deus. Era algo que Deus e todos os seus anjos que apareceram a Jacó aprovavam, e, em vez de amaldiçoá-lo, o abençoaram cada vez mais. Por essas quatro esposas nasceram todos os doze filhos de Jacó, e eles se tornaram os chefes das doze tribos de Israel. E quando chegar o dia em que a Cidade Santa, a antiga Jerusalém, descer de Deus desde o céu, coroada de glória, se encontrarão sobre o muro erguido ao seu redor os nomes dos doze Patriarcas de Israel, belamente gravados sobre os muros. Suponho que o povo deste dia chamaria a maioria desses filhos de Jacó de bastardos; mas eles hão de ser honrados por Deus, não por uns poucos anos, mas com uma honra que há de existir para todo o sempre, enquanto seus nomes se encontrarem emblazonados sobre os muros da Cidade Santa, para permanecer por toda a eternidade. ¶
Ora, lembrai-vos, isto é sob a dispensação do Evangelho, e não sob a lei de Moisés, que foi dada várias centenas de anos depois. O Senhor fez grandes e preciosas promessas à semente de Jacó, por meio dessas esposas, dizendo que herdariam a terra da Palestina, e seriam abençoados acima de todos os povos. Encontramos essa bênção cumprida sobre suas cabeças, segundo a retidão de seus descendentes, até serem espalhados por causa da iniquidade. ¶
Moisés, um dos maiores Profetas que já se levantou, com exceção de Jesus, não apenas aprovou a poligamia, mas de fato a praticou ele mesmo. Encontramos, em certa ocasião, que o irmão de Moisés (Arão) e a profetisa Miriã começaram a repreendê-lo, em consequência de certa esposa etíope que ele havia tomado. (Ver Números 12:1.) Ele já tinha uma esposa, a filha de Jetro, o sacerdote de Midiã. Concordou o Senhor com eles? Disse ele, Estais certos em zombar da segunda esposa de Moisés? É poligamia! É um grande crime! É pecaminoso! Foi assim que o Senhor falou? Não. Mas irou-se por eles zombarem de algo que ele mesmo estimava como muito sagrado; e, como consequência, feriu Miriã com lepra, e ela se tornou branca como a neve; e embora fosse profetisa, teve de ser posta fora do acampamento, e ficar fora sete dias, por falar contra uma das esposas de Moisés. Parecia isso que o Senhor o considerava um casamento ilegal? Prova que o Senhor de fato considerava o casamento legal. ¶
Apenas vos demonstrei que o Senhor aprovava a poligamia, e deu leis regulando a sucessão de bens aos filhos poligâmicos. Mas vou agora repetir-vos um mandamento expresso de Deus a certas pessoas para se casarem com mais de uma esposa; e não podiam livrar-se disso sem quebrar a lei de Deus. Disse o Senhor: "Maldito todo homem que não permanecer em todas as coisas escritas neste livro da lei." Por mais reto e moral que um homem fosse em muitos outros aspectos, ainda assim, se não permanecesse em todas as coisas escritas naquele livro da lei, seria amaldiçoado. "Maldito seja esse homem, e todo o povo dirá, Amém." Ora, entre as coisas escritas naquele livro da lei, encontramos estas palavras—"Se irmãos morarem juntos, e um deles morrer, e não tiver filho, a mulher do morto não se casará fora com estranho: seu cunhado entrará a ela, e a tomará por esposa, e cumprirá para com ela o dever de cunhado. E será que o primogênito que ela der à luz sucederá no nome do irmão que morreu, para que seu nome não seja apagado de Israel." (Ver Deuteronômio 25:5-6.) Deve seu irmão fazer isto, se ele já tiver família própria? Sim. Não importa se tem família ou não, esse mandamento lhe é dado: é a lei de Deus, e a razão é dada para que o nome do morto não pereça e seja cortado de Israel. O irmão vivo tinha de preservar a herança na família de seu irmão falecido. Ora, se a viúva do irmão falecido se casasse com um estranho—uma pessoa que não pertencesse àquela tribo em particular, a herança iria para um estranho, e ficaria passando de tribo em tribo, ou poderia até se tornar herança de alguém que não pertencesse às tribos de Israel. A fim de evitar isso, o primogênito varão do irmão vivo deveria ser considerado filho do irmão morto, e deveria receber a herança e perpetuá-la na família; e isso deveria continuar de geração em geração. Ora, suponde que houvesse sete irmãos, como frequentemente havia famílias desse tamanho em Israel; suponde que casassem com esposas, e seis deles morressem sem deixar descendência masculina para sustentar seu nome, mas o sétimo irmão ainda estivesse vivo; não vedes que essa lei e mandamento obrigaria o sétimo, ainda vivo, a tomar as seis viúvas? Isso ele seria compelido a fazer; e, no entanto, esta geração diz que a poligamia é um crime, quando aqui está a sanção da autoridade Divina. Aqui um homem é posto sob a obrigação de tomar essas seis viúvas, e levantar semente a seus irmãos mortos. Por quanto tempo isso deveria continuar? Há alguma evidência na Bíblia de que deveria cessar quando o cristianismo fosse introduzido por nosso Salvador e seus Apóstolos? Qual era a condição da nação judaica no tempo em que Jesus saiu pregando arrependimento e batismo e admitindo membros em sua Igreja? Eu vos direi, havia milhares e milhares que eram poligamistas, e eram obrigados pelo mandamento de Deus a sê-lo. Não podiam livrar-se disso, se obedecessem a lei de Moisés; e se não obedecessem, seriam amaldiçoados. ¶
Esses poligamistas, então, que tomaram as esposas de seus irmãos falecidos, segundo as noções da cristandade no século dezenove, seriam proibidos de batismo. O Filho de Deus e os Apóstolos que saíram há mil e oitocentos anos eram tão santos que não deveriam permitir que nenhum desses poligamistas entrasse na Igreja cristã, embora estivessem apenas obedecendo ao mandamento dado pelo Deus do céu por meio de Moisés; contudo não deveriam ser batizados—deveriam ser rejeitados. Este seria o argumento do cristianismo no século dezenove. Mas podemos supor que Jesus fosse tão inconsistente a ponto de realmente ordenar uma coisa alguns milhares de anos antes (pois foi Jesus quem deu a lei a Moisés), e então vir dois ou três mil anos depois, e não permitir que o povo entrasse em sua Igreja porque tinham obedecido àquele mandamento anterior? Tal é o tolo argumento da cristandade nestes dias. Dizem eles, A poligamia não deve ser sancionada sob a dispensação cristã. Gostaria de saber onde está sua evidência. Que parte do Novo Testamento, ou onde, nos ensinamentos de Jesus e seus Apóstolos, encontramos tal evidência registrada, de que um homem não deveria ter mais de uma esposa? Não pode ser encontrada. Mas diz alguém, "Li o Novo Testamento, e não me lembro de que o termo esposas seja usado pelos oito escritores daquele livro; mas sempre usaram o termo 'esposa', no singular. E disso se presume que não tinham mais de uma. Examinemos a força dessa presunção. ¶
Encontro dezoito ou vinte escritores do Antigo Testamento que usam "esposa", e não esposas. Tirareis, portanto, a conclusão de que a pluralidade não era praticada entre eles sob o Antigo Testamento? Se a presunção tem algum peso em relação aos oito escritores do Novo Testamento, certamente tem maior peso em relação aos vinte escritores do Antigo Testamento. Mas sabe-se que, neste último caso, a presunção é falsa; portanto ela não tem força nem valor algum no primeiro caso. ¶
Examinemos agora algumas outras objeções levantadas contra a poligamia. O objetor tem frequentemente se referido ao dito de Jesus, ao ordenar ao povo que não repudiassem suas esposas, salvo por causa da fornicação. Jesus diz que Moisés permitiu que um divórcio fosse dado por causa da dureza dos corações do povo; e diz ainda mais que ao princípio não era assim; que Deus fez o homem, macho e fêmea, e foram unidos por autoridade Divina, e os dois se tornaram "uma só carne." Ora, diz o objetor, não diz que três ou quatro se tornarão uma só carne, etc.; e, consequentemente, isto é um argumento contra a pluralidade. Examinemos isto, e vejamos se há alguma força nele. Não era assim ao princípio, antes dos dias de Moisés. O que não era assim? Este repúdio de esposas—este divórcio de esposas por qualquer pequeno motivo sem sentido. Jesus mostrava que isso era contrário à sua mente e vontade; que Moisés apenas o permitiu por causa da dureza de seus corações; mas que ao princípio não era assim; como quem diz, "Se dais divórcios, praticais algo dado por causa da iniquidade do povo. Se repudiais vossas esposas por qualquer outra causa que não a de fornicação, fazeis com que vossas esposas cometam adultério; e qualquer que se casar com a repudiada também comete adultério." ¶
Depois, novamente, ele diz, "Se uma mulher repudiar seu marido, comete adultério." Um homem não tem direito de repudiar sua esposa, nem uma mulher seu marido. "O que Deus ajuntou não o separe o homem; pois ao princípio não era assim, mas os dois se tornaram uma só carne." ¶
Será isto um argumento contra ter mais de uma esposa? Por exemplo, Jacó e Lia eram uma só carne, sendo Lia sua primeira esposa. Jacó e Raquel eram uma só carne. Jacó e Bila eram uma só carne. Jacó e Zilpa eram uma só carne; e se tivesse tido mais mil, teria sido o mesmo: cada esposa teria sido uma esposa legítima, e uma só carne com Jacó; e seus filhos teriam sido legítimos. Isto não era argumento algum contra a pluralidade. Se fosse, Jacó teria sido considerado um transgressor. ¶
No segundo capítulo de Gênesis, está declarado que o Senhor tomou uma costela de Adão, e, adicionando outros materiais, formou uma mulher, e a trouxe ao homem, e a deu a ele como uma ajudadora—como uma esposa. "E disse Adão, Esta é agora osso dos meus ossos e carne da minha carne; esta será chamada mulher, porquanto do homem foi tomada. Portanto, deixará o homem o seu pai e a sua mãe, e apegar-se-á à sua mulher, e serão ambos uma carne." ¶
Este é o dito que Jesus citou. Ora, Jacó, ao tomar quatro esposas, se tornou uma só carne com cada uma delas; mas como e em que sentido? Talvez se diga que se tornaram um em mente, um em entendimento, um em intelecto, um em juízo, etc. Suas mentes hão de ser uma. Mas não diz um em mente, um espiritualmente, mas uma carne. ¶
Como devemos entender isto? Paulo (Efésios 5:28-31) diz, "Assim devem os maridos amar a sua própria mulher, como a seu próprio corpo. Quem ama a sua própria mulher, ama-se a si mesmo. Porque nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes, a alimenta e sustenta, como também o Senhor, à igreja: Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos. Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá à sua mulher; e serão os dois uma só carne." ¶
Paulo faz esta citação do segundo capítulo de Gênesis, para provar que a mulher era uma só carne com o homem, porque foi tirada do corpo do homem, e feita de sua carne e ossos. Ela era uma só carne neste sentido—não em identidade: eram duas pessoas distintas, tanto quanto o Pai e o Filho são duas personagens distintas. ¶
E novamente, a esposa se torna uma só carne com seu marido em outro sentido: quando se apresenta ao homem, e se entrega a ele com um convênio eterno, um que não há de ser quebrado, ela se torna sua carne, sua propriedade, sua esposa, tanto quanto a carne e o osso de seu próprio corpo. ¶
O Pai e o Filho são representados como sendo um. "Eu e o Pai somos um," disse Jesus. Pretenderia alguém dizer que, porque Jesus e seu Pai eram um, ele não poderia receber uma terceira pessoa na comunhão?—uma quarta, ou uma quinta? Se examinarmos os argumentos da cristandade moderna, ninguém a não ser Jesus poderia ser admitido na união; ou, em outras palavras, os dois—isto é, o Pai e o Filho—haviam de ser um, e nenhum outro. Mas Jesus diz, "Pai, não rogo somente por estes que me deste do mundo; mas rogo por todos os que crerem em mim pela sua palavra (os Doze), para que todos sejam um, como tu, Pai, és em mim, e eu em ti; que também eles sejam feitos perfeitos em um." ¶
Os discípulos de Jesus não haviam de perder sua identidade, porque Jesus era um com o Pai. A identidade de Jesus não foi destruída, mas ele permaneceu uma pessoa distinta, e assim também todos os discípulos, e ainda assim se tornaram um; e assim é todo homem e suas esposas. Porque os dois—isto é, Jesus e seu Pai—eram um, isso não impedia os discípulos de alcançar essa mesma unidade. E assim, igualmente, com relação ao homem e sua primeira esposa: porque os dois são uma só carne, isso não o impede de ser uma só carne com cada uma de suas outras esposas que legalmente possa tomar. ¶
Novamente, há um princípio que agora relatarei mais particularmente para benefício dos estrangeiros. Há tal princípio como o casamento para a eternidade, o qual pode implicar uma esposa ou muitas. O convênio matrimonial é indissolúvel; é eterno; não se limita ao tempo; mas é um convênio a existir enquanto a eternidade existir: pertence tanto à imortalidade quanto à mortalidade. Provarei isto. O primeiro exemplo que temos registrado de um casamento foi o de nossos primeiros pais, Adão e Eva. Foram eles casados como as pessoas se casam hoje em dia? Foram casados como o mundo da cristandade se casa no presente dia? Não: casaram-se como seres imortais. Nada sabiam sobre a morte; jamais haviam visto tal coisa como a morte. Quando Eva foi trazida a Adão, foi trazida a ele como um ser imortal. Quando Adão a recebeu como sua esposa, ele era um ser imortal: sua carne e ossos não estavam sujeitos à doença nem à decadência; não estava sujeito a dor e sofrimento: não havia morte operando em seu sistema—nenhuma praga que pudesse prostrá-lo no pó. Estavam destinados a perdurar para todo o sempre. No que dizia respeito a seus corpos, trouxeram a morte sobre si mesmos. ¶
Diz Paulo que o pecado entrou no mundo pela transgressão, e a morte pelo pecado. Notai essa expressão. A morte entrou no mundo pelo pecado. Se não tivesse havido pecado, não teria havido morte. Se Adão e Eva jamais tivessem pecado, estariam vivos sobre a terra neste momento, tão frescos e puros quanto na manhã da criação: teriam permanecido por toda a eternidade sem que uma ruga de velhice os alcançasse. ¶
Estas foram as personagens primeiro casadas. Pergunta—Foram elas casadas por um certo período de tempo, como as pessoas se casam pelo mundo da cristandade neste dia? ¶
Quando vos apresentais diante de um magistrado para ter o casamento solenizado, o ouvis dizer—Eu vos declaro marido e mulher, ou homem e mulher, conforme o caso, até que a morte os separe. ¶
Adão nada sabia sobre esse monstro: não estava em seu credo. Tal ideia jamais entrou em sua mente como a têm hoje em dia—Eu vos uno como marido e mulher até a morte, que os separará. Se eu fosse casado pelas leis da cristandade, consideraria a mulher que tomei minha esposa até a morte. Consideraria esse convênio matrimonial o mesmo que se me tivesse sido prometida uma propriedade por certo período de tempo—digamos, por vinte anos; depois do que, não teria nenhum direito sobre ela. Quando vem a morte, não tenho nenhum direito sobre a mulher casada comigo por aqueles que pretendem administrar a sagrada ordenança. Mas não foi assim com nossos primeiros pais. Quando Eva foi apresentada a Adão como uma ajudadora—como esposa, não se pretendia que aquela relação cessasse depois de umas poucas dezenas de anos, ou quando viesse a morte; mas era tão eterna quanto o próprio Adão e Eva. Quando desceram a seus túmulos, puderam descer com o conhecimento certo e seguro de que ainda eram marido e mulher, e que este sagrado relacionamento continuaria após a ressurreição. ¶
Este é o grande e primeiro exemplo de casamento. Os Santos dos Últimos Dias adotaram este exemplo, não por nossa própria sabedoria—pois não sei se jamais teríamos pensado nisso; mas por nova revelação. O mesmo Deus que originou o casamento para toda a eternidade, em relação ao primeiro casal, falou novamente dos céus e nos disse algo sobre esta sagrada cerimônia. Informou-nos de que, se somos casados e esperamos ter direito sobre nossas esposas, e as esposas sobre seus maridos, nos mundos eternos, esta ordenança do casamento deve ser, não até a morte, mas para todo o sempre, estendendo-se por todo nosso futuro estado de existência. ¶
Tendo estabelecido este princípio do casamento para a eternidade, examinemos os resultados que dele fluem. Suponhamos que aqui está meu vizinho; ele tem uma esposa, e ela está casada com ele por toda a eternidade. Com o tempo, ele morre e deixa sua viúva. Sou um jovem solteiro, e presto-lhe atenções; e ela, ainda jovem, aceita minhas atenções e deseja casar-se comigo; contudo esteve casada com um homem por toda a eternidade. Pode ela casar-se comigo por toda a eternidade? Não. Eu a aceito como esposa apenas para o tempo, cedendo-a com toda a sua posteridade na manhã da primeira ressurreição a seu marido legal e legítimo. ¶
Mas agora o que será de mim? Tenho de ceder essa esposa a seu marido legal e legítimo na manhã da primeira ressurreição; e não devo, segundo as leis da cristandade, casar com outra enquanto ela viver; e ela poderia viver tanto quanto eu. Devo ser privado de uma esposa para a eternidade, porque me casei com essa viúva apenas para o tempo? Ou entraria a pluralidade e me forneceria também uma esposa? ¶
Este é um dos resultados que necessariamente surgem, quando se admite o casamento para a eternidade. Há tanta razão para isso quanto para qualquer outro princípio que Deus já revelou à família humana. ¶
Novamente, por exemplo, aqui está um homem que se casou com uma esposa para o tempo e toda a eternidade; e aqui está uma mulher que não teve o privilégio de se casar, como milhares e dezenas de milhares que estão no estrangeiro, nos Estados e em todo o mundo entre as nações da cristandade: têm de viver contra a própria vontade, e morrer solteironas, sem marido nem para o tempo nem para a eternidade. Se uma dessa classe, que não teve oportunidade de casamento com um homem reto, e que não estava disposta a confiar-se àqueles que considerava indignos de casamento seja para o tempo, seja para a eternidade, viesse ao Território de Utah, e, ainda sem receber proposta de casamento de nenhum jovem solteiro aqui, visse um bom homem que já tem família; ele lhe propõe casamento; ela voluntariamente se oferece para tornar-se uma de suas esposas; ele aceita a oferta; a cerimônia é celebrada. Que mal se faz? Quem é prejudicado? Que lei é quebrada? Nenhuma. Pergunto: Seria correto, tendo em vista que o casamento há de existir, não apenas no tempo, mas na eternidade, que essa mulher, que é uma mulher boa, moral e virtuosa, permanecesse sem marido por toda a eternidade, por não ter tido oportunidade de se casar? Se o casamento é de algum benefício no mundo eterno, não seria muito mais consistente com a lei de Deus que ela tivesse o privilégio, por seu próprio livre e voluntário consentimento, de se casar com um bom homem, ainda que ele já tivesse família, e reivindicá-lo como seu marido, não apenas através do tempo, mas da eternidade? ¶
Jesus nos informa que na ressurreição a humanidade nem se casa nem se dá em casamento: todas essas coisas têm de ser atendidas aqui. Na ressurreição, um homem não é batizado. Aqui é o lugar de atender a essas coisas. Se havemos de nos tornar a semente prometida, e herdeiros segundo a promessa, devemos ser batizados em Cristo e revesti-lo, e fazê-lo antes da ressurreição; pois se eu o adiar para além desta vida, na ressurreição não haverá tal coisa como revestir-se de Cristo sendo batizado. Do mesmo modo, na ressurreição não haverá tal coisa como atender à cerimônia do casamento, tanto quanto nos foi informado. Mas Jesus diz ainda mais, a respeito daquelas pessoas que não atenderam a essas coisas aqui, que na ressurreição são como os anjos de Deus: e alguns dos anjos são um pouco inferiores aos homens. Em que sentido? Não têm o poder de aumentar seu reino pela multiplicação de sua espécie, e isso porque não têm esposas legais e legítimas. Estão provavelmente entre aquela classe que adiou o casamento para a eternidade, e morreu sem a ele atender; e depois da ressurreição, se encontram sem esposa, sem família nem reinos de sua própria descendência. Nessa condição solitária e indesejável hão de permanecer, porque não podem buscar uma esposa depois da ressurreição. Tais, em vez de receberem coroas, meramente se tornarão ministros ou mensageiros para a coroa, sendo enviados por aqueles que alcançaram uma glória mais elevada, que têm o poder de receber reinos, e de os aumentar, por meio de sua própria descendência gerada após a ressurreição pelas esposas dadas a eles ainda aqui neste mundo. Esses anjos perderam esse privilégio; consequentemente, são inferiores ao homem que guarda uma lei celestial; e se esses anjos vivessem sobre a terra, seriam chamados velhos solteirões. ¶
Não vedes a diferença entre a glória daqueles que reivindicam seus privilégios e a daqueles que não o fazem? Não falo à classe que não presta atenção alguma à lei de Deus ou à natureza do casamento; mas falo daqueles antigos Patriarcas, e Profetas, e homens santos que compreenderam a lei de Deus, e a praticaram, e se prepararam aqui para receber um excessivo peso de glória no futuro. Não compreendeis que tais homens se erguem acima dos anjos?—que têm reinos, enquanto os anjos não têm nenhum?—que são coroados reis e príncipes sobre seus próprios descendentes, que se tornarão tão numerosos quanto as areias na praia do mar, enquanto os anjos não têm esposas, filhos, nem filhas para serem coroados sobre eles? Deverá uma jovem, moral, virtuosa mulher, por não encontrar um jovem que seja adequado à sua natureza, ou digno dela—deverá ela ser privada desta exaltação no mundo eterno, por causa das leis gentias da cristandade moderna? Não. Os Santos dos Últimos Dias creem de outra maneira. Cremos que a mulher é tão boa quanto o homem, se ela se sair tão bem. Se um bom homem tem direito a um reino de glória—a uma recompensa e coroa, e tem o privilégio de empunhar um cetro no mundo eterno, uma boa mulher tem direito à mesma coisa, e deve ser colocada a seu lado, e ter o privilégio de desfrutar de toda a glória, honra e bênçãos que são concedidas a seu senhor e marido. Se ela não pode obter senhor ou marido algum por meio de quem possa confiar-se para a exaltação a essa glória, quem pode culpá-la por ir para uma família onde pensa que estará segura? ¶
Estas são algumas das razões a favor da poligamia. Muita gente acha estranho que haja todo um território de poligamistas organizado no meio da cristandade. É tão contrário, dizem, a nossas instituições, e às tradições de nossa sociedade e nação, e à prática de nossos antepassados, que viveram por muitas gerações passadas. Mas nunca refletistes que é possível que algumas das instituições, tradições e práticas de nossos antepassados sejam incorretas? Olhai o vasto número de tradições que tiveram seu lugar sobre a terra, e isso, também, entre as gerações mais esclarecidas, que agora são inteiramente descartadas. Olhai as leis que existiam há apenas poucos anos na esclarecida Inglaterra, onde um homem, se entrasse em uma loja, faminto, e tomasse a quantia de cinco xelins de valor, devia ser enforcado pelo pescoço. ¶
Se um homem estava quase pronto a perecer de fome, como milhares e milhões frequentemente estão na Grã-Bretanha, e entrasse em um parque vizinho e tomasse uma ovelha para preservar sua vida e a vida de sua família, devia ser enforcado pelo pescoço. O povo pensava que essas eram leis salutares, quando existiam. Estavam tão sinceros ao supor que essas leis eram boas quanto o povo dos Estados Unidos está ao supor que deveria haver uma lei severa contra a poligamia. ¶
Ora, permiti-me dizer, clara e ousadamente, sem temor de contradição, que os cidadãos de Utah não estão transgredindo lei alguma do homem ao tomar uma pluralidade de esposas. Mas se afirma por alguns que estamos transgredindo as tradições e instituições estabelecidas entre as nações civilizadas. Admitimos isso livremente; e o povo dos Estados Unidos está transgredindo aquela lei que estava em vigor na velha Inglaterra a respeito do roubo de ovelhas; pois deixam que muitos de seus ladrões de ovelhas escapem sem serem enforcados; e se um homem rouba cinco xelins de provisões, não o enforcam. ¶
Por que a nação americana aboliu, não apenas muitas das tradições, costumes e instituições de outras nações civilizadas que foram transmitidas por tantas eras, mas até aboliu e descartou muitas de suas leis criminais? Por que fizeram essas inovações sobre a sociedade civilizada? Não é tão possível que os Estados soberanos desta esclarecida nação possam estar equivocados quanto às suas rígidas leis que aprovaram contra a poligamia quanto foi para nossos antepassados estarem equivocados em suas rígidas leis contra a feitiçaria em Massachusetts, onde todo homem e mulher deviam ser postos à morte por bruxaria, se alguém se tornasse preconceituoso contra eles? Esta foi uma lei entre nossos antepassados na esclarecida América há apenas um curto período atrás. Pensavam estar certos, e eram tão sinceros nisso quanto os Estados o são nessas leis rígidas e severas contra a poligamia. Mas, graças ao Senhor, Utah não está em cativeiro a tais leis estaduais fanáticas. ¶
A forma do Governo americano torna cada Estado e Território independente das leis de todos os outros. Têm as leis do Missouri alguma influência sobre o povo do Kansas, além do que o povo do Kansas, voluntariamente, por sua Legislatura, reedita? Não. As leis de um Estado ou Território não têm mais relação com as leis de qualquer outro Estado ou Território do que têm com as leis da China. Utah está tão sujeito às leis da China quanto às leis do Missouri, ou às leis de qualquer outro Estado da União Americana. Há uma diferença entre essas leis estaduais locais e as leis dos Estados Unidos aprovadas pelo Congresso em Washington. As leis dos Estados Unidos são aplicáveis por toda a nação. Julgou o Congresso americano apropriado, desde sua primeira organização, aprovar uma lei contra a poligamia? Não. No que diz respeito à lei nacional, ela não tem mais relação com o assunto da poligamia do que com o assunto da monogamia, ou algo que nunca existiu. Vamos ainda mais alto, acima das leis do Congresso, àquele grande instrumento—a Constituição americana, que nós, como povo, sempre consideramos um dos instrumentos mais perfeitos e gloriosos já elaborados por qualquer nação, por sua própria sabedoria, desde que o mundo começou. Ela nos garante a liberdade de imprensa, a liberdade de expressão, a liberdade de buscar a própria felicidade, e de emigrar de Estado em Estado, e de desfrutar de todos os privilégios e direitos que qualquer homem poderia, em consciência, pedir. Há algo naquela gloriosa Constituição que proíba a poligamia? Não há. Transgrediram os cidadãos do Território de Utah aquele instrumento no que diz respeito a essa coisa? Não. Transgrediram eles as leis de qualquer Território ou Estado da União no que diz respeito a este Território? Não. Novamente, já aprovou o Território de Utah alguma lei contra a poligamia? Se o fizeram, então todos os que receberam esta doutrina são transgressores da lei. Podeis buscar em nossas leis do princípio ao fim, mas não encontrareis nada nelas contra a poligamia. ¶
Os sábios legisladores de Utah foram movidos por princípios mais liberais do que aqueles que privaram os cidadãos americanos dos mais caros e sagrados direitos concedidos na Constituição. Qual é, então, o resultado? É que qualquer povo, seja qual for, que se sinta disposto a se casar com mais de uma esposa neste Território, tem o privilégio de fazê-lo. O quê! Os metodistas? Sim. Têm os batistas o direito de vir a Utah e casar-se com duas esposas? Sim, no que diz respeito à lei civil. Têm aqueles que não fazem profissão religiosa alguma o direito de casar-se com vinte ou cem esposas neste Território? Sim: no que diz respeito à lei civil, todos têm privilégios iguais. Têm os chineses o direito de vir a este Território e trazer mais de uma esposa, ou os maometanos? Sim. Toda nação debaixo do céu tem o direito de vir e desfrutar de perfeita liberdade no que diz respeito a essa coisa; e já mostrei que não há lei na Bíblia que se pronuncie contra eles. ¶
Não podeis condenar-nos temporalmente, nem espiritualmente, nem pela lei civil; tampouco podeis condenar-nos pela Bíblia. Não há lei que nos condene, a menos que a lei do Livro de Mórmon o faça; e já mostrei que o Livro de Mórmon não o faz, desde que o Senhor o tenha ordenado. Mas se não formos ordenados quanto a este assunto, então há uma coisa que nos condenará, e é o Livro de Mórmon. Este é um pouco mais rígido do que qualquer outra revelação Divina, quanto à poligamia. Treze anos após a publicação do Livro de Mórmon, o mesmo Profeta que traduziu o Livro de Mórmon recebeu uma revelação sobre o casamento, que ordenou a certos indivíduos nesta Igreja que tomassem para si uma pluralidade de esposas para o tempo e toda a eternidade, declarando que é um princípio reto, e foi praticado por homens inspirados nos tempos antigos. ¶
Em obediência a este mandamento, muitos saíram e tomaram para si uma pluralidade de esposas; consequentemente, não são condenados nesta coisa, no que diz respeito ao Livro de Mórmon; e consideramos este livro parte e porção de nosso credo religioso; e a Constituição da América dá ao povo o direito de adorar a Deus segundo os ditames de sua própria consciência. Mas nossos opositores dizem que ninguém tem direito de cometer crime sob essa afirmação. Admito isso. Mas provai que a poligamia é um crime. Podeis provar que o assassinato, o roubo, e o enganar vosso vizinho são crimes. Podeis provar muitas coisas serem criminosas, pela Bíblia e pela razão. Se buscardes os grandes comentários sobre a lei, eles vos informarão que toda lei criminal se funda na revelação Divina. Quando a revelação Divina aponta um crime, geralmente o adotam como tal, e lhe atribuem penalidades. A Bíblia é o fundamento da maioria das leis criminais da cristandade. Apontai na Bíblia onde a poligamia é um crime, e então podeis dizer que não temos direito de abraçá-la como parte de nosso credo religioso, e pretendê-la como parte de nossos direitos constitucionais. Se abraçarmos o assassinato, o roubo, o furto, o enganar nosso vizinho, como parte de nossos direitos religiosos, então a Constituição nos condenará. Não é assim com a poligamia. Se abraçássemos o adultério em nosso credo religioso, então poderíamos ser condenados como criminosos pelas leis de Deus e do homem; mas quando se trata da poligamia, que não é mais condenada pela Bíblia do que a monogamia, e a abraçamos como parte e porção de nosso credo, a Constituição nos dá o direito inegável de adorar a Deus a este respeito como em todos os outros. O Congresso não tem mais direito constitucional de aprovar uma lei contra a poligamia do que tem de aprovar uma lei contra a monogamia, ou contra um homem que vive em celibato. ¶
Parte do credo dos Shakers é que estão vivendo na ressurreição, e que não deveriam se casar; e encontrareis comunidades inteiras deles vivendo sem maridos e esposas. O Governo dos Estados Unidos não tem direito de dizer que não deveis viver em celibato, mas deveis cumprir com as instituições americanas; tampouco têm direito de dizer que aspergir infantes ou adorar um ídolo chinês é criminoso. Uma grande variedade de peculiaridades são abraçadas por diferentes seitas e sociedades em nossa nação; e têm o direito de manter seus credos, por mais que difiram de seus vizinhos, contanto que esses credos não sejam criminosos. Não pedimos direitos que não nos sejam garantidos pela Constituição americana. Não reivindicamos, imploramos, ou peticionamos por nenhum outro. Esses direitos nos são garantidos como cidadãos americanos. Temos direito ao voto como bem nos aprouver, e a fazer o que bem nos aprouver em assuntos religiosos, contanto que não infrinjamos as leis criminais da nação, nem as deste Território. Isto é tudo o que reivindicamos; e é isto que todo cidadão americano de coração verdadeiro deveria estar disposto a lutar por, se nossos governantes se levantarem e nos privarem dos direitos garantidos pela Constituição. ¶
Supondes, porque somos poucos em número, que devemos submeter-nos mansamente a ver nossos direitos constitucionais arrancados de nós por governantes sem princípios? Se supondes isso, formastes uma opinião errônea do patriotismo dos cidadãos americanos. Há certos direitos pertencentes a toda seita religiosa que habita estes Estados Unidos; e toda seita tem o direito de reivindicá-los, ainda que tenha de fazê-lo à ponta da espada. Não hesito em dizer perante o mundo inteiro que os direitos garantidos pela grande Constituição deste país e suas leis nacionais são os direitos que reivindicarei enquanto tiver existência, mesmo que seja necessário reivindicá-los pela força; e se o Chefe Executivo, ou o Congresso americano, enviarem seus exércitos a Utah para pisotear esses direitos, e tomarem de cidadãos americanos aquilo que lhes é mais caro do que a vida, não considerarei traição resistir-lhes. A maioria pode empreender pisotear a minoria, porque tem o poder de fazê-lo; mas isso não impedirá a minoria de defender patrioticamente seus direitos. Liberdade ou morte deveria ser o lema de todo verdadeiro americano. Estas são minhas opiniões, e presumo que sejam as opiniões de todo o povo nesta grande República que provou e percebe as doçuras da liberdade. ¶
Quando falamos contra os atos de um Presidente dos Estados Unidos, é isso traição? Não. Falam bem dos Presidentes todos os jornais publicados na nação americana? Não há homem algum na nação americana que se esforce ao máximo por influenciar o público contra os atos públicos do Presidente Buchanan? Encontrai-os aos centenas. Estão denunciando o Presidente continuamente da maneira mais amarga. Não denunciam a forma particular de Governo, nem a Constituição, nem as leis; mas denunciam os atos de homens públicos quando lhes apraz; e este direito lhes é garantido, e são responsáveis por ele. Se o fazem injustamente, de maneira caluniosa, são responsáveis perante as leis, e podem ser pesadamente multados. Reivindicamos o mesmo privilégio. Há muitos atos deste Governo de que não gostamos, e assim também muitos dos partidos políticos da nação. Muita gente por toda a nação americana está insatisfeita, não apenas com os atos do Congresso, mas com o Chefe Magistrado da nação; e não temem cometer traição ao trazer esses atos diante do público, e comentar sobre eles. Reivindicamos este direito em conexão com outros cidadãos americanos. ¶
Já detive a congregação tempo suficiente sobre vários assuntos à medida que ocorreram em minha mente. Recomendo aos estrangeiros presentes que recorram a nossas obras e as leiam. Não temos nada de que nos envergonhemos. Todos os nossos escritos são livres e abertos ao público, e o têm sido por anos: centenas e milhares de cópias de panfletos sobre poligamia, e livros sobre vários assuntos, foram enviados ao estrangeiro, não apenas por toda a nação americana, mas por todas as nações civilizadas da Europa, publicados em muitas línguas, que contêm nossos pontos de vista em relação ao Livro de Mórmon, ao Evangelho da salvação, e a nossos direitos como povo. Todos estão diante do público. Não há nenhuma de nossas publicações que desejemos esconder em um canto. Podeis aprender e investigar por vós mesmos. E que aqueles preconceitos que foram instilados em vossas mentes, assim como na minha, sejam postos de lado por um curto tempo, para vos informardes a respeito destes assuntos. Não estejais tão presos aos credos dos homens e à opinião pública a ponto de não serdes suficientemente livres para investigar por vós mesmos; e quando encontrardes um verdadeiro princípio, abraçai-o. Por mais que sejais condenados pela humanidade, agarrai-vos a ele; far-vos-á bem, e nenhum mal. ¶
Que Deus vos abençoe. Amém. ¶